Oitava edição do Simpósio Internacional de Entomologia reúne 700 entomólogos em Viçosa
Cerca de 700 entomólogos estiveram reunidos na última semana, em Viçosa, na VIII edição do Simpósio Internacional de Entomologia. Foram seis dias de evento, com mais de 500 resumos submetidos, 45 palestrantes e mediadores em 7 mesas-redondas, 13 palestras e 12 minicursos.
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Para a doutoranda Gabriela Santos de Paula, um das organizadoras do evento, o grande marco desta edição foi a diversidade das discussões, que uniram excelência científica e reflexões sociais, com destaque para a mesa de diálogo “Ciência e Diversidade”. “Esse momento sensibilizou o público ao tratar de inclusão e representatividade na ciência, e foi uma das atividades mais memoráveis do evento.”
Segundo ela, algumas apresentações se sobressaíram pela repercussão dos temas: a mesa “IPM and Biocontrol in the Mediterranean” foi amplamente aclamada por trazer inovações; a palestra “Changes in the Entomofauna of Glacial Environments”, especialmente aguardada, atraiu participantes de diferentes regiões do Brasil interessados nas implicações das mudanças climáticas em ambientes glaciais. Já a palestra sobre o impacto das mudanças climáticas na fauna cadavérica em um contexto forense destacou-se por evidenciar a importância da entomologia aplicada a questões sociais.
“Um momento que me marcou profundamente foi a mesa solene do evento”, conta Gabriela. “Estar ali com poder de fala em uma mesa composta por sete homens e duas mulheres foi o grande marco para mim, pessoalmente. Foi nesse instante que senti plenamente a responsabilidade de coordenar o evento e o impacto que isso pode ter na vida de outras pessoas. Depois disso, sei que nunca mais serei a mesma.”
O simpósio, que é organizado exclusivamente por alunos do PPG Entomologia, tem forte impacto na formação acadêmica e pessoal de toda a comissão organizadora, que se dedica ao projeto por aproximadamente um ano. “Deixo aqui meu imenso agradecimento a todos que estiveram conosco, tanto no apoio prévio quanto durante o evento presencialmente, tornando possível essa experiência única. Tudo precisa estar em perfeita sincronia, e cada pessoa teve um papel essencial para que tudo acontecesse.”
Além da programação científica, o simpósio também ofereceu atividades especiais, como a parceria com o Cinecom, a segunda edição do Game of Bugs e a já tradicional Entomoparty, que marcaram o encerramento.
O evento teve apoio do Conselho Federal de Biologia (CFBio), do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e das empresas Bejo, Opticam, Krick.co, Caffè di Borella, Livraria UFV e Casa do Queijo, além da Sociedade Entomológica do Brasil (SEB) e do grupo de estudos Insectum.
Foto: João Martins
Lançamentos editoriais destacam trabalho de professores e estudantes do PPG Entomologia
Um guia para inspirar professores de entomologia, uma coleção de histórias em quadrinhos, uma coletânea sobre os cupins da América Latina… O trabalho de professores e estudantes do Programa de Pós-Graduação em Entomologia tem sido destaque recente em livros de formatos distintos, lançados no mercado brasileiro e internacional.
Esta semana, durante o VIII Simpósio Internacional de Entomologia, em Viçosa, foi lançado o livro digital “Didática em entomologia: Aulas práticas para construir teoria”, organizado pelo professor Og de Souza e pelas doutorandas Maria Lacerda e Ana Teixeira (na foto acima), reunindo textos de dezenas de professores e estudantes do programa. No mesmo evento, a comunidade acadêmica também pode conhecer a terceira edição de “Bio HQ: Biologia em Quadrinhos”, que se dedica à entomologia, com duas histórias assinadas pelos professores Angelo Pallini e Madelaine Venzon e suas equipes de pesquisadores. Na semana passada, a editora UFABC já tinha lançado “Cupins da América do Sul”, com três capítulos assinados pelo professor Og.

“Didática em entomologia: Aulas práticas para construir teoria”
A ideia por trás do livro acompanha o professor Og há décadas, desde que ele assumiu a disciplina “Entomologia Geral”, na UFV. “Eu gosto muito de didática, e comecei desde cedo a pensar em formas de o aluno construir a ideia, ao invés de a gente a entregar de presente. Esse é o grande mote deste livro e das aulas que estão apresentadas nele. A gente tenta fazer o aluno chegar até o conhecimento, num processo constante de construção.” Nos capítulos do livro estão reunidas aulas desenvolvidas ao longo dos últimos anos por Og, por seus colegas professores da Entomologia e por muitos de seus pós-graduandos, com sugestões sobre como ensinar diversos conteúdos entomológicos.
Organizado pelo professor e pelas doutorandas Maria Lacerda e Ana Teixeira, o livro foi publicado pela editora CopIt ArXives, especializada em livros digitais totalmente gratuitos. A publicação já pode ser baixada, sem qualquer custo. Voltado especialmente para professores, o trabalho já está circulando entre profissionais de diversas instituições brasileiras. “Temos visto o interesse de diversos professores, de instituições variadas, e muitos inclusive têm enviado o material nos grupos de seus laboratórios, para que o pessoal comece a usar. A receptividade tem sido muito boa”, comemora Maria.

BioHQ 3: Biologia em Quadrinhos
Idealizada por professores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a terceira edição do projeto “Bio HQ: Biologia em Quadrinhos” é a primeira totalmente voltada para a entomologia. Na obra estão onze histórias em quadrinhos que desvendam os segredos da ciência dos insetos. Cada história é assinada por autores diferentes. O professor Angelo Pallini e os pós-graduandos Caio Henrique de Assis, Rafael Iasczczaki e Gabriel Beghelli apresentam os ácaros em “Batalha nas sombras”, enquanto a professora Madeleine Venzon e os egressos Douglas Ferreira e Jéssica Martins tratam do controle de pragas do café em “Guardiões do café: a épica jornada do Crisopídeo no Cerrado”.
A série de livros Bio HQ tem a missão de popularizar a ciência, apresentando pesquisas reais realizadas em diversas instituições públicas brasileiras. A terceira edição, organizada pelos professores João Agreli, Solange Cristina Augusto e Rosângela Dantas de Oliveira, foi semi-finalista do Prêmio Jabuti acadêmico, na área de ilustração.

Cupins da América do Sul
A obra lançada este mês pela editora UFABC é uma coletânea de trabalhos recentes em termitologia, incluindo três capítulos escritos pelo professor Og de Souza. Coordenador do Laboratório de Termitologia da UFV, Og foi convidado pelos organizadores a apresentar parte dos resultados de sua equipe, ao lado de cientistas de toda a América do Sul.
“Dos meus três capítulos, tem um que eu particularmente gosto que é ‘Como e por que formular hipóteses da termitologia’, que é muito válido para qualquer pessoa que estiver escrevendo tese, e não necessariamente em entomologia. Discuto como se constroi uma hipótese científica”, conta o professor. Os demais capítulos tratam do fenômeno do inquilinismo em cupins e do papel desses insetos como engenheiros do ecossistema.
Organizado pelos professores Alberto Arab, Ives Haifig e Tiago Carrijo, o livro está disponível em versão digital gratuita.
Pesquisadores colaboram em artigo que apresenta passado, presente e futuro de Plecoptera
Dois egressos e um estudante do Programa de Pós-Graduação em Entomologia estão entre os autores do artigo “Stonefly systematics: past, present, and future“, uma revisão sobre Plecoptera, publicado recentemente pela revista Insect Systematics and Diversity, da Sociedade Americana de Entomologia. Mellis Rippel e Lucas de Almeida foram convidados pela primeira autora do artigo, Anna Eichert, pesquisadora do Museu Americano de História Natural, quando eram doutoranda e pós-doc no Museu de Entomologia da UFV, coordenado pelo professor Frederico Salles. Mais tarde, o mestrando Felipe Sarmento também se uniu ao time, que soma 24 especialistas de diversos países.
O artigo explora e revisa a literatura existente sobre a ordem, ao mesmo tempo em que apresenta reflexões sobre o futuro desses insetos aquáticos, fundamentais para o monitoramento da qualidade das águas em todo o mundo. “Estamos falando inclusive das lacunas que ainda existem e como a gente pode melhorar isso. É uma forma de incitar novas ideias de pesquisa, e a região da América do Sul é uma das que mais carecem de amostragem para a biodiversidade de Plecoptera”, destaca Mellis.
A expectativa dos pesquisadores é que o material, agora organizado e atualizado, possa encorajar e inspirar jovens entomologistas a colaborar com os estudos. “Quem fizer a leitura vai ver como é a ordem, na esfera evolutiva, considerando a história taxonômica, e também a ecologia, o comportamento, a biologia dos bichos. É uma iniciativa que vai facilitar e abrir portas para muita gente.”
A ordem Plecoptera, embora ainda pouco estudada no Brasil, apresenta grande potencial de diversidade não documentada. Em uma perspectiva global, ela é mais diversa em regiões temperadas do Hemisfério Norte, especialmente América do Norte, Ásia Oriental e Europa. “No Brasil, a gente tem duas famílias muito diversas. Elas são muito importantes na visão filogenética porque são muito distantes uma da outra, e isso é relevante para estudos evolutivos e comparativos. Aos poucos, os trabalhos da nossa comunidade vêm crescendo, com novos pesquisadores, abrangendo diferentes regiões do Brasil.” Além da importância da ordem para o monitoramento dos ambientes aquáticos, Mellis destaca os avanços nos estudos taxonômicos, que contribuem fundamentalmente para a compreensão da biodiversidade.
Mellis e Lucas, agora egressos do PPG Entomologia, conheceram a pesquisadora Anna Eichert na Itália, em um congresso voltado especificamente para os especialistas em Plecoptera. Na lista de autores do artigo, estão cientistas de diversos continentes. “Essa é a proposta do trabalho, são autores da África, da Ásia, da Europa, de outros países da América Latina, ou seja, é um trabalho de fato mundial, reunindo quem trabalha com bichos viventes e também com fósseis.”
Foto: Frederico Salles
Pesquisadores identificam nova espécie de fungo capaz de manipular formigas
Uma coleta realizada em Ouro Preto em busca de elementos que pudessem evidenciar a relação entre fungos e vespas resultou na descrição de uma nova espécie de fungo, Ophiocordyceps acanthoponerae, capaz de infectar e manipular o comportamento de formigas. A descoberta foi feita pelo pós-doc Samuel Lima Santos, do Programa de Pós-Graduação em Entomologia, e descrita em sua tese de doutorado, defendida em junho. Agora, ele apresenta a novidade também em um artigo que acaba de ser publicado pela Fungal Systematics and Evolution (FUSE). Além de Samuel, assinam o texto o professor Simon Elliot, orientador do trabalho e coordenador do Laboratório de Interações Inseto-Microorganismo da UFV, Thairine Mendes Pereira, pós-doc do laboratório e coorientadora, João Araújo, coorientador e pesquisador do Museu de História Natural da Dinamarca, na University of Copenhagen, Rodrigo Feitosa, da Universidade Federal do Paraná, e Harry Evans, do CABI UK Centre.
Os fungos do gênero Ophiocordyceps ficaram famosos por sua habilidade de controlar o comportamento de insetos. A espécie descoberta por Samuel pertence a uma nova linhagem desses fungos, filogeneticamente próxima a uma espécie que infecta vespas sociais, mas morfologicamente e molecularmente distinta das que, até então, eram conhecidas pela manipulação de formigas. A espécie de formiga infectada por essa nova espécie de fungo, Acanthoponera mucronata, é rara, de hábitos noturnos, difícil de ser coletada. “Vi aquelas formigas douradas infectadas ao longo da trilha, muito diferentes do que eu já tinha visto em registros, e coletei por precaução. Mostrei para o meu coorientador, o João Araújo, a maior referência atualmente nesses fungos zumbis no mundo. Ele identificou ali o potencial de que fosse algo totalmente novo, e fomos investigar.”
Para identificar as formigas, Samuel recorreu ao professor Rodrigo Feitosa, especialista no gênero. “Ainda há pouca informação disponível sobre elas, mas a minha sorte é que o Feitosa é o maior especialista nelas no mundo. Não sabemos ainda as nuances da interação dessas formigas com essa nova espécie de fungo, precisamos investigar mais, entender o ciclo de infecção, como elas são afetadas, como isso afeta a colônia de uma maneira geral, ou seja, temos mais trabalho pela frente.” O processo de identificação e análise do material coletado teve também o reforço do pesquisador Harry Evans, micologista britânico, que esteve recentemente no Brasil, em visita ao PPG Entomologia. “É um trabalho muito especial para mim, minha estreia como micologista e também minha primeira espécie descrita como biólogo. Foi uma honra ter o Harry comigo, que é uma das maiores referências no estudo de fungos entomopatogênicos no mundo”, diz Samuel.
Contribuição inédita
A expectativa dos pesquisadores é que a descoberta de O. acanthoponerae tenha um papel importante na compreensão da evolução dos fungos manipuladores de insetos sociais. “Esse é o primeiro registro de formigas dessa tribo sendo infectadas por esses fungos. E o fato de elas terem características relacionadas a uma outra espécie que infecta vespas cria um elo entre esses dois grupos de insetos sociais e sua relação com Ophiocordyceps. E esse elo, provavelmente, terá um papel importante para ajudar a explicar o processo de evolução da manipulação comportamental exercida por esses fungos”. A descoberta também tem o potencial de contribuir de forma mais aplicada. “Quando a gente começa a entender mais sobre essa questão de quais são os grupos associados a esses fungos, a gente consegue também investigar os metabólitos, as estratégias que esses fungos usam, as substâncias que eles produzem para manipular esses insetos… E podemos usar esse conhecimento para o desenvolvimento de estratégias de controle de pragas, por exemplo.”
Fotos: Frederico Salles
Com mais de 600 inscritos, VIII Simpósio Internacional de Entomologia abre último lote
A um mês de seu início, a edição 2025 do Simpósio Internacional de Entomologia já tem mais de 600 inscritos. As vagas remanescentes estão disponíveis no último lote, aberto em meados de julho. O tema deste ano é “Insetos e Clima: conexões invisíveis, efeitos globais“.
“Trata-se de um debate necessário, que está sendo travado em escala global, e acreditamos que o simpósio contribuirá de forma significativa para esse diálogo”, diz a estudante Gabriela Santos de Paula, que coordena o evento ao lado de Mateus de Castro Matos.
Na programação, estão incluídas palestras, mesas-redondas, apresentações de trabalhos e outras atividades voltadas ao estudo dos insetos e suas aplicações em diferentes áreas. Também está previsto Game of Bugs, uma competição entre equipes de estudantes de graduação e pós-graduação. “Estamos organizando essa atividade em um espaço externo, com o objetivo de proporcionar um momento mais descontraído e interativo entre os participantes. Teremos telão, premiações, brindes e outras surpresas que preferimos manter em sigilo por enquanto.”
A programação completa pode ser vista neste link. Serão oferecidas palestras com pesquisadores internacionais, de outras instituições brasileiras e da própria UFV. “O ponto mais forte do evento, sem dúvida, é a programação científica. As palestras, mesas-redondas e minicursos foram cuidadosamente planejados para abordar questões atuais e relevantes dentro da Entomologia”.
O Simpósio é organizado por estudantes do Programa de Pós-Graduação em Entomologia, com apoio da Sociedade Entomológica do Brasil. Esse ano, o evento acontece entre os dias 23 e 28 de agosto. A data precisou ser alterada em função da disponibilidade do espaço acadêmico-cultural Fernando Sabino, localizado no Centro de Vivência da UFV.
As inscrições podem ser feitas neste link. O custo para estudantes de graduação é de R$ 375; para estudantes de pós-graduação, R$ 465; R$ 600 para profissionais e R$ 290 para visitantes.
Programa de Pós-Graduação em Entomologia