Perfil: Ricardo Ribeiro de Castro Solar
O estudante do doutorado em Entomologia, Ricardo Ribeiro de Castro Solar, passou um ano em Lancaster, no Reino Unido, pesquisando sobre biodiversidade e conservação de insetos. Ricardo é integrante da Rede Amazônia Sustentável, um projeto internacional que busca compreender como a atividade humana influencia na biodiversidade da Amazônia Oriental brasileira. Ricardo realizou a coleta de dados no Brasil e a análise foi feita no Lancaster Environment Centre, onde o estudante contou com a orientação do pesquisador Jos Barlow. No Brasil, Ricardo é orientado pelo professor da UFV, José Henrique Schoereder.
Ricardo conta que o tempo que passou no norte da Inglaterra, vivendo outra cultura científica, foi muito enriquecedor para a sua pesquisa. “Os dados foram analisados de forma mais holística” – avalia. Interagindo com um “grupo amplo e coeso”, que reúne pesquisadores de vários táxons, Ricardo afirma que ampliou o seu horizonte de pesquisa. Aumentaram as suas publicações e melhorou a escrita dos artigos. O rigoroso inverno europeu e a inexistência de feriados também favoreceram para que Ricardo se dedicasse integralmente à pesquisa.
Quando retornou ao Brasil, em setembro de 2013, Ricardo sentiu bastante a diferença climática. “Isso foi o mais complicado” – afirma. Ele conta que na Inglaterra, só foi ver uma formiga após sete meses. Imagina o desafio que não foi para ele esse período, já que Ricardo tem como hobby a fotografia de insetos. Pelo visto, em Lancaster, faltou a luz natural ideal para as lentes do fotógrafo e a biodiversidade tropical para a qual Ricardo estava acostumado a direcionar sua objetiva.
A estadia na Inglaterra pode até não ter favorecido a fotografia, mas lá, Ricardo pôde se aperfeiçoar para tirar o máximo proveito das mídias que ele costuma utilizar como aliadas na pesquisa. Além de um curso sobre apresentação de pôsteres, Ricardo, que também é blogueiro, fez um curso sobre utilização de blogs e redes sociais para divulgação científica. No blog Photography and Conservation, Ricardo compartilha as fotos que tira entre uma amostra e outra. Vale a pena acessar e conferir as belas imagens.
Atuando numa das frentes da Rede Amazônia Sustentável, Ricardo estuda, especificamente, o efeito dos diversos sistemas de uso da terra sobre a biodiversidade de formigas, besouros coprófagos e abelhas de orquídeas. Para coletar os dados da sua pesquisa, ele passou nove meses no estado do Pará. Nesse período, Ricardo morou na cidade de Paragominas. Para ele, viajar pelo seu país também foi um grande aprendizado. “O norte é muito rico culturalmente e é bem diferente do que se vive aqui, por exemplo. Tem palavras no vocabulário que eu não conhecia e hábitos com os quais eu não estava acostumado, como abandonar a cama e dormir numa rede” – descreve.
Na Rede Amazônia Sustentável, Ricardo interage com mais de 100 pesquisadores, que buscam identificar os principais problemas e avaliar as implicações sociais e ecológicas do uso da terra na Amazônia Oriental brasileira. O projeto reúne pesquisadores de 30 instituições nacionais e estrangeiras, como: Lancaster University, University of Cambridge, Embrapa Amazônia Oriental, Embrapa Instrumentação Agropecuária, Museu Paraense Emílio Goeldi, UFV, Universidade Federal de Lavras, entre outras. Saiba mais sobre a Rede Amazônia Sustentável.
Estudo avalia a comunicação química entre cupim hospedeiro e seu inquilino
Buscando compreender como diferentes espécies de cupim habitam o mesmo ninho, um estudo realizado pelo estudante do doutorado em Entomologia, Paulo Fellipe Cristaldo, avaliou a comunicação química entre Constrictotermes cyphergaster (hospedeiro) e Inquilinitermes microcerus (inquilino). A pesquisa analisou a natureza dos feromônios de trilha nas duas espécies e testou o reconhecimento mútuo de uma trilha. Os resultados foram publicados na PlosOne, no dia 21 de janeiro, no artigo intitulado “Mutual use of trail-following chemical cues by a termite host and its inquiline”.
Conhecidos como insetos sociais, os cupins vivem de forma harmônica em ninhos/colônias que constroem a partir da divisão de tarefas. Organismos que não pertencem ao ninho são expulsos pelos soldados. Uma das formas de reconhecer um “intruso” (heteroespecífico) é através de feromônio. Cada organismo tem o seu feromômio, que são substâncias químicas liberadas para reconhecer se outro organismo é ou não da mesma espécie (coespecífico).
Durante a pesquisa, foram realizados ensaios comportamentais para observar a orientação dos operários em coespecíficos versus trilhas dos heteroespecíficos. As amostras de ninhos analisadas foram obtidas próximo da cidade de Sete Lagoas, no estado de Minas Gerais. Ao todo foram coletadas 13 colônias. Parte das análises foi feita em Viçosa, Minas Gerais, e outra parte foi realizada em Praga, na República Checa, onde o trabalho foi finalizado.
O estudo concluiu que os feromônios de trilha podem moldar a coabitação de C. cyphergaster e seu inquilino I. microcerus. Foi testada a possibilidade de utilização do feromônio de trilha do hospedeiro pelo inquilino para evitar contato ou para se orientar. O inverso também foi testado, ou seja, a utilização do feromônio de trilha do inquilino pelo hospedeiro. O estudo indica que o inquilino é capaz de usar sinais químicos do hospedeiro para se proteger, evitando a sua detecção dentro do ninho. Isso reforça a tese de que o inquilinismo entre as espécies de cupim é baseado em estratégias que evitam conflitos.
Quatro pesquisadores da Entomologia integram Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia
Quatro orientadores do Programa de Pós-Graduação em Entomologia da UFV participam como pesquisadores do Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT). Os professores Eliseu José Guedes Pereira, Maria Goreti de Almeida Oliveira e Raul Narciso Carvalho Guedes são pesquisadores participantes do INCT em Interações Planta-Praga. Já o professor Eraldo Rodrigues de Lima participa do INCT Semioquímicos na Agricultura. O Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia tem como objetivo fomentar projetos de excelência articulados em nível nacional.
Os INCTs são formados por uma instituição sede e por um conjunto de laboratórios ou grupos associados de outras instituições, constituindo redes científico-tecnológicas. Para que uma instituição seja sede de um INCT ela deve ter competência em determinada área, alta qualificação na formação de recursos humanos e capacidade de alavancar recursos de outras fontes.
A UFV é a instituição sede do INCT em Interações Planta-Praga. O Instituto está sediado no Bioagro, sob a coordenação da professora Elizabeth Pacheco Batista Fontes.
Os orientadores da Entomologia, Eliseu, Maria Goreti e Raul, integram um grupo de 30 pesquisadores, oriundos de cinco estados brasileiros. Além da UFV, as seguintes instituições participam do INCT em Interações Planta-Praga: Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), Embrapa Hortaliças (CNPH), Universidade de Brasília (UNB), Embrapa Arroz e Feijão (CNPAF), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Instituto Agronômico de Campinas (IAC).
O INCT em Interações Planta-Praga foi estruturado para atender à necessidade de se avançar o conhecimento científico sobre as bases moleculares e funcionais das interações entre plantas e pragas relevantes para a agricultura brasileira. O Instituto visa também intensificar colaborações multidisciplinares e multi-institucionais que contribuam para uma melhor adequação de procedimentos para coleta de dados da maneira mais eficiente possível.
De acordo com o professor Raul, a participação em um INCT é estrategicamente importante. Com os recursos disponibilizados é possível adquirir equipamentos e melhorar a infraestrutura dos laboratórios. Ele conta que com os recursos aprovados no edital lançado em 2008, foram investidos 700 mil reais na construção do anexo ao prédio do Bioagro, onde está sediado o laboratório do professor Eliseu. O professor Raul destaca que a ampliação laboratorial libera espaço para outros pesquisadores.
O INCT Semioquímicos na Agricultura, do qual o professor da Entomologia Eraldo Rodrigues de Lima participa, tem como instituição sede a Esalq/USP. Além da USP e da UFV, também participam deste INCT a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
O INCT Semioquímicos na Agricultura tem a missão de diminuir a dependência externa, desenvolvendo bases tecnológicas para a identificação, síntese e uso de semioquímicos (insetos e plantas) na agricultura brasileira, contribuindo para o equilíbrio regional desta área no Brasil, com ênfase à formação de recursos humanos e de jovens pesquisadores.
Atualmente, são 126 INCTs de diversas áreas espalhados por todo o Brasil. O Programa foi lançado em 2008 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por meio do CNPq, em parceria com as fundações de amparo à pesquisa dos estados. A previsão é de que ainda no início deste ano, o MCTI divulgue novo edital dos INCTs, visando à renovação e à formação de novos institutos que desenvolvam pesquisas em áreas consideradas estratégicas para o país, como: Biotecnologia, Nanotecnologia, Tecnologias da Informação e Comunicação, Saúde, Biocombustíveis, Energia Elétrica, Hidrogênio e Fontes Renováveis de Energia, Petróleo, Gás e Carvão Mineral, Agronegócio, Biodiversidade e Recursos Naturais, Amazônia, Semi-Árido, Mudanças Climáticas, Programa Espacial, Programa Nuclear, Defesa Nacional, Segurança Pública, Educação, Mar e Antártica e Inclusão Social.
Perfil: Ancidériton Antonio de Castro
Recém-chegado dos EUA, o estudante da Entomologia, Ancidériton Antonio de Castro, em breve iniciará o pós-doutorado, sob a orientação do professor Raul Narciso Guedes. Ancidériton passou um ano no estado da Flórida, pesquisando sobre inseticidas para serem utilizados na agricultura orgânica. Ele retornou ao Brasil em novembro de 2013, terminou o doutorado assim que chegou, oito meses antes do previsto, e aguarda o início do pós-doc.
A exemplo do mestrado, que ele cursou em um ano e quatro meses, Ancidériton afirma que a redução no tempo para concluir o doutorado está relacionada ao seu desejo de sempre estar preparado para aproveitar as oportunidades. Ele conta que não consegue deixar nada para depois e esta é uma característica pessoal que o faz se identificar muito com os americanos.
Na Flórida, sob a orientação da professora Jesusa Crisostomo Legaspi, do United States Department of Agriculture (USDA), Ancidériton testou inseticidas na lagarta Spodoptera exígua, praga que ataca culturas como soja, feijão, milho e algodão, e no percevejo predador Podisus maculiventris.
Ancidériton avalia que o tempo que passou nos EUA foi muito favorável, tanto pessoal como profissionalmente. “Os pesquisadores americanos são muito dedicados, a rotina deles é das 9 às 17h, direto”. Ancidériton desenvolveu um dos seus experimentos na Flórida, desde a criação dos percevejos em BOD à escrita dos artigos. Ele destaca o suporte dado pelo USDA, que dispõe de toda a estrutura e materiais necessários.
Além de aprender novas técnicas, Ancidériton ressalta a qualidade de vida, o tratamento das pessoas, a oportunidade de viver numa cultura diferente, o aperfeiçoamento do inglês e as amizades que fez. Bom de bola, durante as partidas de futebol em que frequentemente participava, Ancidériton acabou ganhando muitos amigos, principalmente de origem latina.
As novas amizades favoreceram a sua adaptação, que segundo ele não foi difícil em nenhum momento. No início do doutorado ele já havia passado dois meses nos EUA e também já conhecia a professora Jesusa Crisostomo Legaspi. Pouco antes de Ancidériton embarcar, Legaspi veio ao Brasil, onde passou duas semanas através do programa Professor Visitante da Capes, numa parceria entre a UFV, o USDA e a Florida A&M University.
Na UFV, Legaspi desenvolveu uma série de atividades sob a coordenação do professor José Cola Zanuncio, orientador do Ancidériton no doutorado e responsável por estabelecer o contato para a ida dele para Tallahassee, capital da Flórida.
Por sua vez, a cidade onde Ancidériton morou permitiu que ele aproveitasse também os cartões postais americanos. Tallahassee fica a quatro horas de Orlando e sete horas de Miami. “Conheci todos os parques da Disney” – conta. Ainda fascinado com tudo que viveu no doutorado sanduíche, ele resume: “Foi uma experiência incrível”.
Estudo desvenda o desenvolvimento do coração de Aedes aegypti durante a passagem de larva para adulto
Com o objetivo de aprofundar os conhecimentos sobre as mudanças microanatômicas que ocorrem durante o desenvolvimento do coração do mosquito Aedes aegypti, uma pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Estrutural, liderada pelo professor Gustavo Martins, analisou larvas, pupas e fêmeas adultas. No artigo intitulado “The ultrastructure of the Aedes aegypti heart“, publicado na Arthropod Structure & Development, em novembro de 2013, são descritos vários aspectos como a forma geral do coração e suas células associadas, e a estrutura da musculatura e válvulas cardíacas.
De acordo com o estudo, o coração do mosquito consiste em cardiomiócitos dispostos de uma forma helicoidal, que está fisicamente associada com grupos intersegmentares de células pericardiais e músculos alares. Ramificações normalmente presentes nos músculos alares são mais desenvolvidas em adultos do que nas fases imaturas, o que torna o coração mais robusto nos alados. Células pericardiais filtram e armazenam substâncias da hemolinfa, sendo evidenciado pela absorção do corante carmim em larvas que foram alimentadas em dieta, o que deixa as células de cor avermelhada. Inclusões coradas com carmim correspondem a estruturas de elétron-densas semelhantes a lisossomos, são mais abundantes e proeminentes em pupas, sugerindo um aumento do acúmulo de resíduos durante a metamorfose do inseto.
As amostras analisadas foram obtidas em uma colônia permanente mantida no insetário do Departamento de Biologia Geral da UFV. Segundo o professor Gustavo Martins, é importante conhecer o coração dos mosquitos porque através do sistema circulatório são transportados nutrientes e também parasitas. O pesquisador afirma que o principal desafio desta pesquisa foi retirar por inteiro o coração dos mosquitos sem danificar a sua estrutura. Foram realizadas dissecções para a retirada das amostras, que foram submetidas a uma combinação de técnicas de microscopia.
Pelo artigo, identificar o que acontece com órgãos vitais dos insetos durante o desenvolvimento pode contribuir para entender como o sistema circulatório dos insetos está organizado e como os componentes circulantes da hemolinfa são bombeados na cavidade corpórea em diferentes fases do desenvolvimento.
Programa de Pós-Graduação em Entomologia