Estudantes estrangeiros intensificam a diversidade e a internacionalização da Entomologia

Atualmente, a Entomologia conta com mais de 20 estudantes de mestrado e doutorado de outras  nacionalidades. Colômbia, Chile, Equador, Costa Rica e México são alguns dos países que contribuem para a diversidade e a internacionalização do Programa. Uma das principais formas de ingresso dos estudantes estrangeiros é através do convênio entre a Organização dos Estados Americanos (OEA) e o Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras (GCUB).

Pelo Programa de Alianças para a Educação e Capacitação (PAEC), universidades brasileiras recebem estudantes de outros países membros da OEA para realização de cursos completos de pós-graduação stricto-sensu, em níveis de mestrado e doutorado. O principal objetivo é “promover a maior integração das universidades brasileiras na região, incentivando o intercâmbio científico e cultural, melhorando a mobilidade estudantil internacional e apoiando o desenvolvimento humano de indivíduos notáveis nas Américas”.

O acordo de cooperação já possibilitou que 41 universidades brasileiras acolhessem até hoje, aproximadamente 550 estudantes. De todas as universidades participantes no Brasil, a UFV é a que já recepcionou mais estudantes. Somando as vagas oferecidas em 2011, 2012 e 2013, a UFV recebeu um total de 68 estudantes pelo PAEC. E boa parte deles concluiu ou está cursando o mestrado ou o doutorado em Entomologia. O Programa é um dos que mais recebe estudantes pelo PAEC na UFV.

Desde o início do convênio, em 2011, a Entomologia manifestou interesse em recepcionar estudantes de outros países. O professor Simon Luke Elliot, coordenador do Programa de Pós-Graduação, explica que “a participação no PAEC faz parte da política da Entomologia de sempre buscar a heterogeneidade do grupo, estimulando a vinda de pessoas de fora. A  adoção dessa política também pode ser evidenciada no recrutamento de docentes, na aplicação da prova de seleção em diversas regiões do Brasil e também no incentivo que damos para que nossos estudantes façam algum programa sanduíche em outros países. Como biólogo, sei da importância deste processo de mistura para a  evolução”.

No PAEC, a bolsa concedida ao estudante estrangeiro é de responsabilidade da universidade que o acolhe. A seleção dos candidatos ocorre da seguinte forma: o programa de pós-graduação faz a pré-seleção e um Comitê Científico de Avaliação indicado pelo GCUB faz a seleção final. De acordo com o professor Simon, na Entomologia, a pré-seleção dos candidatos ao mestrado e ao doutorado é feita com base nos currículos, priorizando estudantes vindos das melhores universidades e que já receberam premiação.

Pelas regras do PAEC, o estudante só pode ser contemplado uma única vez, ao mestrado ou ao doutorado. Por exemplo, um estudante que foi contemplado com uma bolsa do PAEC no mestrado não pode receber outra bolsa pelo mesmo convênio para o doutorado.  O professor Simon afirma que a primeira participação no PAEC foi uma experiência muito positiva para a Entomologia. Tanto é que muitos estrangeiros que ingressaram pelo PAEC no mestrado em 2011, se inscreveram no processo seletivo regular da Entomologia, foram aprovados e hoje estão fazendo doutorado.

Um dos critérios que os estudantes devem atender para se candidatar ao PAEC é ter tido um ótimo desempenho acadêmico no seu país de origem. A microbióloga Angela Benavides Martinez veio da Colômbia para o Brasil neste ano para iniciar o mestrado em Entomologia, através do PAEC.  Ela destaca que o programa de cooperação com o Brasil é a oportunidade que ela buscava para fazer uma pós-graduação e aprofundar seus conhecimentos sobre controle biológico por meio de microrganismos. Angela concluiu a sua graduação em 2003 e trabalhou por dez anos em uma empresa privada em Bogotá. De acordo com a microbióloga, estudar na Colômbia é muito caro e o governo local não oferece bolsas. Assim, as oportunidades oferecidas por outros países para qualificação profissional surgem como um reconhecimento aos bons alunos.

Estudo investiga a mediação de sinais visuais do macho na atração sexual de vespas sociais

Pesquisadores da UFV investigaram a ocorrência de sinais visuais do macho mediando a escolha de parceiro sexual pela fêmea da vespa Polistes simillimus. Os resultados da pesquisa conduzida pelo doutorando em Entomologia, André Rodrigues de Souza, sob a orientação do professor José Lino-Neto, foram publicados na PLOS ONE, no mês de maio. No artigo “Sexy Faces in a Male Paper Wasp“, os autores indicam que a pigmentação preta na face de machos de P. simillimus parece desempenhar um importante papel na seleção sexual.

Para o estudo foram coletadas 15 colônias com produção de machos de P. simillimus em Viçosa (MG), na região sudeste do Brasil,  entre os meses de janeiro e abril de 2013. As colônias foram mantidas em laboratório em containers plásticos. Foram analisados adultos machos e fêmeas coletados no campo, bem como adultos recém-emergidos em laboratório. Além da ocorrência de sinais visuais de machos mediando a escolha do parceiro sexual pela fêmea, foram investigadas também as relações de dominância entre os machos.

Os pesquisadores identificaram três características visuais notáveis, variáveis e sexualmente dismórficas: pigmentação preta na cabeça, um par de manchas amarelas abdominais e o tamanho do corpo. A fim de testar se cada uma dessas características está associada às relações de dominância entre os machos e/ou à escolha da fêmea, foram realizados ensaios de comportamento. Além disso, a pigmentação preta na cabeça dos machos foi manipulada com tinta para testar se as fêmeas avaliam essa coloração.

Após a realização dos ensaios comportamentais, foi identificado que nenhuma das três características visuais está associada à relação de dominância entre machos. Entretanto, os machos com maior proporção de pigmentação facial preta e com maiores manchas amarelas abdominais são comumente escolhidos como parceiros sexuais.

Depois de manipular experimentalmente a proporção de pigmento preto na face dos machos com tinta, os pesquisadores concluíram que as fêmeas podem avaliar a coloração facial dos machos durante a escolha de um parceiro sexual. Diante disso, os autores sugerem que a seleção sexual é frequente em P. simillimus e destacam a importância desse grupo como modelo para o estudo da comunicação visual em insetos.

Carreira docente oferece oportunidades e desafios profissionais

A expansão do ensino superior brasileiro nos últimos anos e a consequente demanda por professores nas universidades federais tem atraído muitos profissionais para a carreira docente. Para se ter ideia, tomando como base apenas a Entomologia, de acordo com dados apurados em 2013,  49% dos doutores egressos estão empregados em instituições públicas de ensino superior. Mas essa oportunidade de inserção profissional  traz seus desafios, sobretudo no início da carreira.

Preparar e ministrar disciplinas, desenvolver pesquisas, participar de reuniões, atender aos alunos e cumprir a burocracia fazem parte de uma rotina que a professora Sabrina da Silva Pinheiro de Almeida conhece bem. Trabalhando no Campus da UFV Rio Paranaíba desde fevereiro de 2013, Sabrina compartilha um pouco da sua experiência docente: “O primeiro ano como professora você vive para preparar aulas. Tudo é muito novo e cada dia dentro da sala de aula é de aprendizado. Mas passado o primeiro momento, fica mais natural e prazeroso, pois você já sabe o que esperar. O que ninguém conta é a grande parte da burocracia necessária para que as coisas funcionem. Toma tempo e paciência, pois muitas vezes você tem que deixar de se dedicar ao ensino e à pesquisa para cuidar de papéis”.

Bióloga formada pela Universidade Federal de Ouro Preto, Sabrina fez mestrado na Universidade Federal de Lavras e doutorado e pós-doc em Entomologia, na UFV, sob a orientação do professor Carlos Sperber. Desde o mestrado ela pesquisa sobre a ecologia de besouros escarabeíneos, popularmente conhecidos como besouros rola-bosta. Em Rio Paranaíba, a professora Sabrina dá aulas para o curso de graduação em Ciências Biológicas, onde ministra várias disciplinas, como Ecologia Geral, Ecologia de Populações, Ecologia de Comunidades, Biogeografia, Educação e Interpretação Ambiental  e Trabalho de Conclusão de Curso I e II.

A professora  explica que como o Campus é relativamente novo, os professores ainda não conseguem ministrar apenas as disciplinas em que são especialistas e isso é “desgastante”. No que se refere às pesquisas, a professora Sabrina tem desenvolvido projetos de Iniciação Científica com alunos do curso de Ciências Biológicas, dando continuidade à linha que ela já trabalhava no doutorado e pesquisando sobre ecologia de outros organismos detritívoros em áreas de Cerrado da Região do Alto Paranaíba.

As atividades acadêmicas da UFV em Rio Paranaíba tiveram início no segundo semestre de 2007. Atualmente, o Campus oferece 12 cursos de graduação e um curso de pós-graduação, o mestrado acadêmico em Produção Vegetal.  De acordo com a professora Sabrina, “trabalhar em um campus novo traz grandes desafios, especialmente no que diz respeito à infraestrutura, como falta de equipamentos e laboratórios. Porém, trabalhar em um campus novo nos traz coisas boas também, como pessoas novas na carreira, com muito pique para o trabalho. Participar da construção daquilo que você acredita ser certo, ao invés de entrar em um sistema pré-estabelecido”.

Além da professora Sabrina, mais três egressos da Entomologia também atuam no Campus da UFV Rio Paranaíba, os docentes: Ézio Marques da Silva, Flávio Lemes Fernandes e Vinícius Albano Araújo.

Doutorandos participam de curso de Ecologia Química nos Estados Unidos

Os doutorandos Hernane Dias Araújo e Antônio Cláudio Ferreira da Costa participaram do Insect Chemical Ecology – ICE 14, curso realizado no período de 1º a 15 de junho, no estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Os estudantes, orientados do professor Eraldo Lima, apresentaram os trabalhos: “Discrimination of host plants and mating preference in two host strains of the fall armyworm, Spodoptera frugiperda (Lepidoptera: Noctuidae)” e “Helicoverpa armigera (Lepidoptera: Noctuidae) in Brazil: can an invasive species interfere with the chemical communication of a native species?”.

Durante duas semanas, os participantes ouviram palestras ministradas por 22 especialistas de diferentes países. A programação contou com uma viagem de campo para pomares no sul da Pensilvânia, onde foi possível acompanhar a utilização de semioquímicos de forma aplicada. Além da apresentação de trabalhos e sessões de discussão em grupo, houve ainda uma experiência prática de laboratório utilizando várias técnicas em pesquisa com semioquímicos.

O Insect Chemical Ecology é realizado desde 2003. A cada edição o curso é sediado em um local diferente, alternando entre o Centro de Ecologia Química da Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State University), a Universidade Sueca de Ciências Agrícolas (SLU Alnarp) e o Instituto Max Planck de Ecologia Química, na Alemanha.

Perfil: Katherine Girón Pérez

Há seis meses, a colombiana Katherine Girón Pérez concluiu o doutorado em Entomologia e assumiu o cargo de pesquisadora associada sênior na DuPont Pioneer no Brasil, multinacional norte-americana que atua no mercado de híbridos de alta tecnologia. Katherine defendeu sua tese no final de novembro de 2013, e no início do mês seguinte já estava atuando na DuPont.

Katherine se diz realizada com a oportunidade de seguir aprendendo  e continuar fazendo pesquisa, que é o seu principal objetivo: “Sempre quis ser pesquisadora. Ter como base a descoberta, o porquê das coisas”. Mas a pesquisadora ressalva: não dá para separar a Katherine pessoa da profissional.

Por isso, quando questionada sobre o seu êxito em sair direto da pós-graduação para o mercado de trabalho, ela  atribui a aspectos da sua formação acadêmica e da sua personalidade. Segundo Katherine, para conquistar a vaga de pesquisadora na DuPont Pioneer, foi fundamental ela ter trabalhado com uma “área promissora” durante o doutorado, a sua pro-atividade e o domínio do inglês, além de ter como  primeiro idioma o espanhol.

Engenheira agronômica formada pela Universidad Nacional de Colombia, Katherine fez mestrado na ESALQ e doutorado na UFV, onde contou com a orientação do professor da Entomologia, Eliseu José Guedes Pereira. Durante o doutorado, ela trabalhou com manejo de resistência de insetos a plantas transgênicas. Katherine conta que o seu interesse por estudar  transgênicos surgiu em função da sua curiosidade. De tanto ouvir a respeito dos transgênicos no senso comum, ela foi buscar no rigor científico a resposta para alguns questionamentos.

Katherine avalia que fazer doutorado é difícil: “não basta ter preparo, é preciso ir além. Tem gente muito boa. Muitos têm conhecimento, mas atitude, poucos”. E foi com essa visão, muita determinação e força de vontade, que ela se inscreveu no processo seletivo da DuPont.

Katherine busca usar o medo a seu favor: “ou o medo te paralisa ou te estimula a superá-lo” – e claro, ela fica com a segunda opção. Com muita convicção,  Katherine conta que quando foi para a entrevista de seleção, ela não chegou apenas para aquela etapa, ela chegou para ficar. “Eu fui atrás. Tem que se impor. E deu certo” – resume.

Na véspera do início da Copa do Mundo no Brasil, a colombiana prepara as malas para os Estados Unidos, onde fará um treinamento na área de manejo de resistência. Ela embarcará no dia em que a Copa começa e garante que vai torcer a distância. Mas que desculpem os amigos brasileiros: a torcida é para a seleção da Colômbia.

Futebol à parte, a colombiana que fixou residência no interior de São Paulo destaca: “o brasileiro gosta de compartilhar com outros povos e as oportunidades são boas no país”. Contudo, ela deixa claro: “como a terra da gente não tem igual. Morar fora é pesado. Você abre mão de muita coisa”. Mas como Katherine bem sabe “é preciso driblar as adversidades. O sucesso depende da nossa capacidade de sair da zona de conforto”.