Perfil: Raul Narciso Carvalho Guedes

Raul

“O fato é que insetos incitam a minha curiosidade e se apresentam como modelos de trabalho muito interessantes para mim”. A constatação pessoal é do pesquisador que conquistou a última edição do Prêmio Funarbe de Reconhecimento em Pesquisa, o professor Raul Narciso Carvalho Guedes. O Prêmio visa “homenagear os pesquisadores comprometidos com a captação de recursos e a produção científica de excelência”. Características que, por sua vez, permeiam a carreira do professor titular do Departamento de Entomologia da UFV. São 25 anos de docência, dedicados à formação de recursos humanos e à pesquisa dos efeitos adversos de inseticidas em “sistemas entomológicos”. Uma busca constante pela produção científica de qualidade, que se iniciou enquanto ele ainda era estudante na UFV e foi paulatinamente alcançando inserção internacional.

Antes de tudo, vale fazer uma breve passagem pelo seu currículo. Em 2011, ele foi nomeado Fellow of the Royal Entomological Society. Foi coordenador do PPG em Entomologia (2009-2013). Membro da comissão coordenadora do PPG em Bioquímica Agrícola (2010-2014) e membro do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFV (2009-2011). Foi membro da Câmara de Assessoramento de Ciências Biológicas e Biotecnologia da Fapemig entre 2010 e 2012. Diretor-Científico da Funarbe entre 2011 e 2014. É membro da Câmara de Biologia Aplicada da Research Foundation – Flanders (Bélgica) e docente adjunto da Dalhousie University (Canadá). É membro do comitê permanente da International Working Conference on Stored Product Protection e integra o comitê editorial de vários periódicos científicos.

 Produção científica

Ao todo são 289 artigos completos publicados em periódicos até hoje. Tomando como referência apenas uma base de dados, só na Web of Science, ele totaliza 236 trabalhos, 3139 citações e Fator H 31. Nos últimos 15 anos, o professor Raul captou cerca de 1,2 milhões de reais em projetos não institucionais, gerenciados pela Funarbe. Ele avalia que essa é “uma captação razoável de um pesquisador ativo da instituição” e vê, “com pesar, tal captação ser pouco frequente”. Para o pesquisador, “o destaque cabe mais ao fato de conseguir reverter uma captação mediana em uma produção científica de qualidade e consistente ao longo do tempo e que tem sido efetivamente consultada, utilizada”.

Basta dar uma olhada no seu currículo Lattes para perceber que, sem dúvidas, a sua bibliografia é referência na área de Ecotoxicologia de Inseticidas. Dentre todos os trabalhos realizados, ele afirma não ser possível destacar um: “Acredito que o melhor ainda é aquele que eu vou fazer. Tenho tido a satisfação de integrar alguns trabalhos em áreas bem diferentes nos últimos anos. A interação com alguns docentes mais jovens da UFV tem sido particularmente profícua e criativa. Outros colegas mais antigos sempre renderam boas colaborações e vários dos meus trabalhos mais interessantes são exatamente com eles. Na realidade, uma coisa que gosto na UFV é a receptividade que tenho em termos de colaborações com outros colegas explorando ideias diferentes. Mais recentemente tenho recebido muitos convites para escrever artigos de revisão e opinião, o que tem sido extremamente instrutivo. Tenho gostado desta experiência, pois me possibilita desenvolver novas ideias ao identificar lacunas de conhecimento ou percepções questionáveis, além de me incentivar a buscar novas metodologias e abordagens. Este exercício tem sido prazeroso, apesar de demandar esforço extra”.

 Início na UFV

Esforço pelo visto foi o que não lhe faltou desde que chegou a Viçosa (MG), em 1985, como estudante do curso de Agronomia. “Sempre gostei de biologia animal, com uma queda por genética e evolução. O meu primeiro ano foi curioso e importante, pois nele descobri que gostava de cálculo diferencial e integral, que química e física aplicadas tinham seus apelos, e biologia não representava grande surpresa em termos de aptidão”.

Da vida estudantil, o professor Raul recorda várias histórias, “todas na UFV, pois vivíamos imersos nela. A maioria refletindo as dificuldades e apertos do período, já que o nível de exigência da UFV era bem elevado, requerendo que tirássemos um mínimo de 75% para não irmos para prova final. No caso da minha turma, como pegamos mudança de currículo de Agronomia, passando de um mínimo de quatro para cinco anos e nossas novas disciplinas sem sequer aprovação pelo Conselho Universitário, a coisa foi bem complicada. Fiz disciplinas que ninguém mais fez depois, inclusive, Meteorologia Agrícola. Todas obrigatórias. Só no final do curso pudemos escolher cursar duas ou três disciplinas optativas de um total de seis” – relembra. Nessa época também ele teve aulas com “algumas figuras mitológicas da UFV”, como os professores Matozinhos (Fitotecnia) e Sérvulo (Solos), e teve breve contato com os professores Milgar (Entomologia) e Hélio (Meteorologia), só para citar alguns.

As suas primeiras oportunidades na Universidade foram como monitor de Genética Básica e depois como estagiário no Departamento de Solos. “Somente depois destas oportunidades tentei estágio na Entomologia, onde não consegui. Contudo, acabei conseguindo estágio em Entomologia de Produtos Armazenados no Centro Nacional de Treinamento em Armazenagem (Centreinar), onde tive bolsa de iniciação científica e depois cheguei a trabalhar por um ano, antes de ser contratado pela UFV como professor assistente”.

 Área de interesse

Após a graduação, ele ingressou no mestrado em Entomologia, também na UFV, sob a orientação do professor José Oscar Gomes de Lima. “Um bônus adicional do meu mestrado foi o incentivo em tentar o doutorado no exterior, em minha área de interesse – Toxicologia de Inseticidas, que era muito carente no Brasil. Na verdade, a carência ainda persiste, mas uma nova geração promissora de colegas promete reverter o quadro” – pondera com otimismo. O desejo de seguir no doutorado foi adiado, já que ele havia passado no concurso para professor da UFV.

O professor Raul começou as atividades docentes em novembro de 1992. “O meu início na UFV foi interessante, com muitas aulas, mas em boa companhia com os novos colegas – Marcelo Picanço e Angelo Pallini. Ainda assim foi possível explorar alguns experimentos em colaboração com o Marcelo, com quem me diverti muito à época. O Og estava completando o doutorado na Inglaterra e só vim a interagir com ele após o meu retorno do doutorado. Uma grata surpresa que tive no período inicial da minha docência foi que descobri gostar de dar aulas, o que tinha minhas dúvidas a respeito”.

Entomologia Agrícola_18 mar 2016

Após dois semestres como professor na UFV, o pesquisador foi para os Estados Unidos, fazer doutorado em Entomologia, na Kansas State University.  “O meu retorno ao Brasil aconteceu em meados de 1997, com novas ideias e conceitos a serem postos em prática e testados. O meu reenquadramento na UFV aconteceu logo após o meu retorno, quando passei a professor adjunto”.

 Inserção internacional

Além das novas ideias e conceitos, o recém-doutor trouxe consigo o desejo ainda mais evidente de inserção internacional. Mas ele sabia que isso seria fruto de um desenvolvimento paulatino e consistente do seu trabalho. “Logo que retornei ao Brasil, notei que teria mais dificuldade de publicar aqui do que no exterior, pois a minha área de pesquisa foi e ainda é fruto de negligência no país, onde tem foco extremamente restrito. Assim, a dificuldade é maior para se conseguir revisores adequados, incorrendo em atrasos e problemas. No exterior, o meu material era mais facilmente compreendido e aceito, até porque a minha área estava em plena expansão na América do Norte e Europa. Até hoje a minha pesquisa ainda desfruta de boa receptividade nestas regiões, inclusive porque foge um pouco das priorizações nelas. Acabo favorecido como um elemento reconhecido como de inesperada criatividade nestas regiões e que tem tido boa aceitabilidade. Até quando eu não sei, mas sempre é possível explorar aspectos novos, mesmo em coisas, conceitos ou situações antigas”.

O pesquisador desfruta de grande reconhecimento no exterior. Em 2013, esse reconhecimento veio em forma de premiação. Naquele ano, o Departamento de Entomologia da Kansas State University, onde o professor Raul fez o doutorado, conferiu a ele o Alumnus Distinguished Award, prêmio entregue anualmente a um ex-aluno que construiu uma carreia de sucesso.

 Aperfeiçoamento

Além da Kansas State University, o pesquisador teve passagem por outras instituições fora do Brasil. Foram três pós-doutorados: na University of Leicester, na Inglaterra (2002); no USDA Grain Marketing and Production Research Center, nos Estados Unidos (2007); e na Carleton University, no Canadá (2008). Atualmente, ele vive período sabático nos Estados Unidos, onde após viabilizarem auxílio financeiro para sua ida e estadia, o professor Raul deverá cumprir contrato de trabalho com duração prevista de dois anos, no USDA. “A expectativa é de que esteja definitivamente de volta ao Brasil em junho de 2018. Tenho mantido meu envolvimento com a UFV e a pós em Entomologia via e-mail, Skype e videoconferência. Até tem funcionado melhor do que o esperado, apesar de eu ainda guardar desconforto em manter interlocução remota com meus orientados” – avalia. Raul e alunos

Para ele, a relação que mantém com os alunos é bem tranquila (pelo menos é o que ele acha!). “Eu era bem exigente e particular no início da minha carreira na UFV e sem muita paciência com burocracia ou falta de conformidade ou empenho (pelo menos como eu percebia tal empenho). Acho que fui melhorando com o tempo e sabendo lidar melhor com a diversidade de pessoas com o qual a gente encontra, e a forma com que pensam ou executam as coisas. Neste aspecto, o doutorado nos EUA foi bem importante, assim como minha estadia na Inglaterra. Com o tempo, acho que passei a reconhecer melhor até onde poderia ir com cada estudante e possibilitar a eles mais autonomia. Os de maior potencial e dinamismo usufruem melhor disto, os demais cumprem as metas e quesitos necessários conseguindo uma boa formação. Normalmente, todos excedem minhas expectativas iniciais, o que me deixa gratificado”.

 Desafios

As mudanças não pararam por aí. Outra situação que lhe era bastante desconfortante, hoje já não o é como antes.  As apresentações orais (e em outro idioma) eram um verdadeiro desafio, mas ele acredita que vêm melhorando. “O pessoal é bem paciente e de forma geral aceita bem meus maneirismos. Acho que estou melhorando nas minhas apresentações. Ainda gasto um tempo grande para prepará-las, mas elas têm saído como pretendido e a receptividade anda boa. O pessoal continua me convidando para palestras, mesmo sabendo que eu preferiria evitá-las (ao menos em outro idioma), ou talvez exatamente por isto. Costumam, inclusive, me ajudar nas apresentações. Em uma apresentação plenária na Tailândia, o sistema de projeção congelou e me deixou sem ação, apesar dos slides iniciais da minha apresentação terem causado até certa euforia em alguns. Contudo, alguns colegas resolveram quebrar o protocolo e adiantaram perguntas enquanto o pessoal ajeitava o sistema. Foi legal e pude retribuir o favor já em duas ocasiões, inclusive em sessão do Congresso Internacional de Entomologia”.

Se por um lado alguns desafios vêm sendo superados a contento, outros, nem tanto. “O nosso foco é o desenvolvimento de recursos humanos de alta qualificação e isto ainda tem sido um desafio, principalmente na minha área. Já tive a oportunidade de participar da formação de gente muito boa, extremamente gabaritada. Contudo, o número é bem aquém do que se faz necessário frente ao contexto atual de utilização de pesticidas e particularmente, de inseticidas e acaricidas no Brasil, com os riscos inerentemente impostos por estes. No desenvolvimento destas atividades, projetos e publicações, além de interações no Brasil e exterior, as formações vão se consolidando. Esta rede de colegas precisa ser ampliada e melhor integrada”.

Entre aulas, pesquisas, orientações, cooperações internacionais, desafios passados e presentes, prêmios e reconhecimentos, para ele o que realmente importa é gostar do que se faz: “Algumas conquistas são almejadas e esperadas, mas fazer isto bem, com prazer, é fundamental. Um colega da Bélgica me disse certa vez nós levávamos uma vantagem estratégica importante: nosso hobby era nossa profissão. O trabalho é diversão. Concordei com ele na época e continuo concordando hoje”.

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