Entomologista brasileira conquista vaga de professora na Universidade da Flórida

Silvana Moraes

Após construir uma sólida e respeitável carreira no Brasil, a pesquisadora Silvana Vieira Paula-Moraes, egressa da Entomologia UFV, começa a construir uma nova carreira em território americano, como Assistant Professor na Universidade da Flórida. No Brasil, ela atuou em algumas das instituições mais desejadas pelos profissionais das Ciências Agrárias, como por exemplo, Embrapa e Ministério da Agricultura. Mas o desejo de colaborar com a formação de pessoas fez com que a experiente pesquisadora começasse uma nova carreira nos Estados Unidos. E engana-se quem pensa que o Brasil “perdeu mais um talento”. Como Silvana destaca, “o Brasil está ganhando porque são pontes que a gente constrói”. O país ganhou mais uma parceira em solo americano, já que intensificar as cooperações com pesquisadores brasileiros é um dos seus objetivos como professora do Entomology and Nematology Department, na Universidade da Flórida.

Tudo começou quando a então caloura do curso de Agronomia da UFV chegou a Viçosa (MG), em 1988, buscando formação de qualidade em uma das universidades mais respeitadas na área. A escolha de ir para Viçosa também contou com a influência do seu pai, cuja família é natural da cidade de Teixeiras (MG). O pai de Silvana tinha o sonho de ver um filho estudando na UFV, já que ele não pôde estudar.

Na Universidade, Silvana foi moradora do Alojamento Feminino, no “213”, quarto que ela dividia com mais cinco alunas de graduação. Ela lembra com carinho a boa convivência que tinha com as colegas do “213”. Silvana, que faz parte da primeira geração de sua família a ingressar no ensino superior, destaca o aspecto inclusivo que a UFV tinha, e ainda tem, de permitir que estudantes de baixa renda tenham moradia e alimentação gratuitas durante o curso.
Marcelo Picanço e Silvana

 Encontro com a Entomologia

Na graduação, a rotina era dividida entre as aulas do curso de Agronomia, o trabalho no Restaurante Universitário, onde ela era bolsista alimentação, e a monitoria em Entomologia. O encontro de Silvana com a Entomologia mudou os seus planos. Quando ela ingressou na UFV, o desejo era seguir para a Economia Rural. Entretanto, quando foi aprovada para monitora I e passou a trabalhar com Entomologia Agrícola, percebeu que ali estava o seu futuro.

Nessa época, Silvana trabalhou diretamente com os professores Angelo Pallini e Marcelo Picanço, que estavam iniciando a carreira docente na UFV. Ela integrou a equipe do professor Marcelo no Laboratório de Manejo Integrado de Pragas (MIP). Sabendo da importância de ter um bom currículo, deixou a monitoria em Entomologia para também se dedicar à iniciação científica, entretanto, no Departamento de Solos, onde havia conseguido uma bolsa do CNPq.

Concluída a graduação, Silvana retornou à Entomologia em 1994, para fazer o mestrado. Ela foi a primeira estudante de pós-graduação a ser orientada pelo professor Marcelo Picanço. Na pós, ela também foi monitora e em seguida foi aprovada no concurso para professora substituta na UFV.

 Oportunidades

A vontade de seguir trabalhando fez com que em 1997, ela se mudasse para Belo Horizonte (MG), para atuar no Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), já que tinha sido aprovada no concurso para analista técnico. Ela ficou na capital mineira até 1999, quando se mudou para Brasília (DF), sua cidade natal e onde ela residiu até encerrar a sua carreira no Brasil.

Silvana foi para a capital federal para trabalhar como bolsista da Embrapa, mas logo depois foi aprovada no concurso do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Ela conta que a princípio o concurso do MAPA não era o que ela mais queria, mas a oportunidade de emprego falou mais alto, já que na época ela era bolsista da Embrapa. “Eu reconheço que trabalhar no MAPA foi fundamental para conhecer um lado da defesa agropecuária no âmbito nacional e internacional que até hoje é algo que me soma”.

Ela ocupou o cargo de fiscal agropecuário no MAPA até o ano de 2005, quando foi convocada em outro concurso que também havia sido aprovada, desta vez, para pesquisadora da Embrapa. Emocionada, Silvana recorda o dia exato em que foi convocada pela Empresa, enquanto ela estava numa reunião entre Brasil e China, para fechamento de um acordo entre os países. Ali, parecia ter chegado a oportunidade que ela tanto esperava, já que trabalhar com pesquisa sempre foi um objetivo.

 Inserção internacional

Dia de campo sobre H armigeraNa Embrapa Cerrados, Silvana cumpriu todos os requisitos iniciais do cargo e, em seguida, no ano de 2008, embarcou com a família para os Estados Unidos, para fazer doutorado na University of Nebraska Lincoln, sob a orientação dos professores Tom Hunt e Bob Wright. Os quatro anos de doutorado foram fundamentais para que a pesquisadora repensasse a sua carreira: “A vontade de voltar para a universidade se fortaleceu depois do doutorado”.

As parcerias internacionais também foram se fortalecendo ao retornar ao Brasil em 2012: “Quando cheguei ao Brasil, os produtores da Bahia, principalmente produtores de algodão, estavam enfrentando problemas com uma nova praga, a Helicoverpa armigera. Com isso, as oportunidades de trabalho com os Estados Unidos e também com a Austrália aumentaram”.

Já com grande inserção na pesquisa internacional, quando surgiu a oportunidade de participar do processo seletivo para a Universidade da Flórida, Silvana que já queria voltar para o ambiente acadêmico, ser professora novamente e fazer pesquisa, não pensou duas vezes e se aplicou para a seleção, um processo que ela considera “muito concorrido, mas também muito justo e transparente”.

 Caminho a ser desbravado

Aprovada, desde o fim de novembro de 2016, Silvana mudou-se para o oeste da Flórida, na região da cidade de Pensacola. Ela trabalha numa estação de pesquisa onde está sendo estruturada a área de Entomologia. “Este início é como se eu estivesse entrando num novo caminho a ser desbravado. Eu fui muito bem acolhida, principalmente, pelo fato de ser uma entomologista na região. A pesquisa agropecuária nos Estados Unidos tem um peso muito grande, existe uma ponte muito fortalecida entre a universidade e os produtores. Aqui, tem muita tradição, tem um entendimento claro que a sua pesquisa vai ajudar e fortalecer a produção da região”.

Sivana painelMonitora, professora substituta na UFV, analista técnico do IMA, bolsista da Embrapa, fiscal agropecuário do MAPA, pesquisadora da Embrapa e, agora, Assistant Professor na Universidade da Flórida. À primeira vista, parece que a trajetória profissional de Silvana foi fácil, onde ela foi conquistando etapa por etapa. Mas ela garante: “Não é sorte. Foram degraus de muita luta. Meu pai sempre falava: ‘Pensa grande, sonha grande, que os sonhos vão acontecer’. A vida dá oportunidades para a gente, mas é claro que tem que se esforçar. Não tem facilidade. É muito trabalho, 99% transpiração” – resume.

 “Ser entomologista é parte do que eu sou”

A pesquisadora afirma que, além de muito trabalho, as conquistas profissionais só foram possíveis porque ela tem uma base familiar muito boa. Ela também assegura que não existe separação entre o lado profissional e o pessoal: “É tudo junto e misturado. Ser entomologista é parte do que eu sou. Eu sou mãe, esposa, entomologista”.

Mãe coruja, ela é só elogios à filha Mariana, 17 anos, que desde pequena está imersa neste universo da Entomologia. “A Mariana veio para provar que você tem que cuidar do lado pessoal também. Quando ela nasceu, eu era bolsista da Embrapa, não tinha licença maternidade. Voltei a trabalhar com 26 dias. Mas a alegria de ter uma filha compensa tudo”. Silvana e Família

Silvana se considera abençoada, e o motivo não é só as conquistas profissionais, mas, sobretudo, a família que ela tem. Além da filha, ela não esconde a admiração que tem pelo marido, Antonio Roosevelt, a quem ela define como o seu companheiro de vida, um amor conquistado nos tempos de UFV. “Casei com o meu melhor amigo, antes de começar o mestrado. Conheci o meu marido na graduação em Agronomia. E a nossa jornada tem sido juntos. Eu não faria tudo isso se não tivesse uma pessoa do meu lado como eu tenho ele”.

Dessa época também vem a melhor amiga, Cristina Schetino. As duas se conheceram no Laboratório de MIP da UFV.

 “Viçosa é a minha casa”

Para Silvana, onde quer esteja, a UFV sempre será a sua casa: o lugar onde ela se formou e do qual ela muito se orgulha. Por isso inclusive, o desejo dela de agora fortalecer as cooperações com o Brasil, principalmente, com a UFV. Silvana destaca que, nos Estados Unidos, ela trabalha com pesquisa aplicada, com MIP, que são ferramentas universais, aplicadas mundialmente. “Então, eu ter vindo para a Flórida fortalece trabalhos que podemos fazer juntos. Aumenta o nosso leque de cooperação”.

Olhando para a sua carreira, Silvana acredita que o êxito que ela vem obtendo até aqui tem muito a ver com aproveitar oportunidades e inspirar-se em pessoas que sejam referências. Se ela pudesse dar alguma dica para quem está buscando construir uma carreira de sucesso seria: “Tem que saber português muito bem, tem que saber inglês, investir em publicações e ter muito foco, saber o que você quer. ‘O que faz vencer na vida não é a pressa, não são os talentos, é a direção’” – finaliza.

One Comment on “Entomologista brasileira conquista vaga de professora na Universidade da Flórida

  1. Ela merece, por ser uma pessoa determinada.Luta intensamente com responsabilidade,afinco,sem fronteiras por aquilo que quer.
    Define metas e objetivos para alcança_los,e neste caminho não mede esforços para o alcance dos objetivos traçados.
    A sua profissão é sua realização e o alcance do que planejou dentro do que lhe foi solicitado é a sua realização.
    Ama a sua profissão.
    Parabéns pela sua garra,responsabilidade edinamismo.

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