Referência mundial, micologista britânico inspira pesquisadores na UFV

_DSC9743

Um cientista nato, que explora o meio natural como ninguém. De forma bem objetiva, assim poderia ser descrito o pesquisador Harry Evans, referência mundial em utilização de fungos para controle biológico. Extremamente observador, ele consegue enxergar uma diversidade de fungos em qualquer lugar das trilhas. Em Viçosa (MG), mais precisamente na Mata do Paraíso, a diversidade micológica o cativou. A reserva de Mata Atlântica pertencente à UFV não poderia ter nome mais apropriado, pois ela revelou-se um verdadeiro “paraíso” para o britânico de Liverpool (Reino Unido). São dias e mais dias de coleta, observações em campo, inúmeras descobertas científicas e novos questionamentos de um pesquisador que não se contenta apenas em descobrir a existência de uma estrutura, ele sempre buscará também descobrir por que ela é de tal forma e não de outra, e qual a sua importância ecológica e evolutiva.

_DSC4494

Fitopatologista, especializado em taxonomia / entomopatologia e controle biológico. A parceria com a UFV surgiu na década de 80, quando Harry supervisionou, no Reino Unido, parte das teses do então estudante de pós-graduação Robert Barreto, atual professor do Departamento de Fitopatologia da UFV. “Quando Robert voltou ao Brasil, mantivemos contato e quando ele foi nomeado para a UFV, visitei-o para colaborar em projetos do CABI, envolvendo plantas brasileiras que se tornaram invasoras em outras partes do mundo”.

Harry começou a trabalhar no CABI (Centre for Agriculture and Biosciences International) em 1980 e destaca: “CABI é uma organização internacional sem fins lucrativos, financiada por seus países membros (incluindo o Brasil) e pelos financiadores de projeto. Originalmente fundada pelos países da Comunidade Britânica para fornecer assistência técnica para a agricultura, especificamente, para o manejo de pragas e doenças nos países em desenvolvimento dos trópicos. Hoje, continua através de clínicas de plantas (PlantWise) e publicações de alta qualidade, incluindo Pest Compendia”.

Atualmente, Harry é “emeritus fellow” do CABI. Após a sua aposentadoria na organização internacional, ele foi convidado para atuar como pesquisador visitante na UFV, numa colaboração de pesquisa e ensino com os professores Robert Barreto (Departamento de Fitopatologia) e Simon Elliot (Departamento de Entomologia). _DSC4489

De acordo com o professor Robert, “Dr. Evans é um dos últimos de uma linhagem de ‘micologistas do Império Britânico’. A maior parte de sua produtiva vida profissional foi dedicada aos desafios relacionados aos fungos no mundo tropical. Seus interesses são múltiplos e sua carreira rica em experiências e aventuras científicas que o levaram a quase todos os países do mundo. Ele morou e trabalhou na África (Gana) e América do Sul (Equador e Brasil), quando trabalhava para a agência inglesa ODA (Overseas Development Agency), sobretudo, investigando doenças do cacaueiro, mas também dedicado a um passatempo científico: coletar e estudar fungos patógenos de artrópodes”.

“My mata”

Desde que passou a atuar como pesquisador visitante na UFV, Harry se divide entre Brasil e Reino Unido. Em colaboração com o professor Simon, Harry trabalha desde 2006, com bolsas financiadas pelo CNPq, Fapemig e, atualmente, pela Capes. Na última semana, ele retornou ao seu país de origem, após passar mais uma temporada de três meses em Viçosa. Quando está por aqui, ele tem destino certo nos fins de semana: “Numa sexta-feira de tarde ou fim de semana qualquer, nos últimos dez anos, um visitante da Mata do Paraíso poderia facilmente avistar um inglês trajando bermudas e perneiras, degustando seu chá sentado num canto da floresta. Ao seu lado, um cajado e uma velha mochila amarela, contendo espécimes de fungos recém-coletados” – descreve o professor Robert.

_DSC9728Ainda de acordo com o professor do Departamento de Fitopatologia, Harry se afeiçoou tanto à reserva natural da UFV que a denominou carinhosamente de “my mata”. “Na Mata do Paraíso ele observou fenômenos de interação fungos-plantas, fungos-insetos e fungos-fungos que são de elevado interesse científico e merecem a atenção dos pesquisadores da UFV. Um exemplo da extraordinária diversidade micológica que ele constatou ao longo dos estudos naquele fragmento florestal, e que ele gosta de citar, é a descoberta de várias espécies novas de fungos do gênero Beauveria – conhecido patógeno de insetos – que pode aumentar o número de espécies no gênero em quase 50%. Esses materiais e parte dessa grande diversidade de amostras e isolados fúngicos aguardam caracterização e estudo e estão depositados nas coleções da UFV” – revela o professor.

Tantas coletas e descobertas resultaram numa expressiva produção bibliográfica. Ao longo de sua carreira, são mais de 200 artigos científicos sobre patologia de plantas e insetos. Mas o professor Robert destaca que a contribuição de Harry na UFV vai muito além das excelentes publicações: “Os benefícios da presença, atividade e influência de Harry Evans durante essa longa colaboração com grupos na UFV são indiscutíveis e não podem ser avaliados apenas pelas excelentes publicações que foram geradas com a sua participação ou sob a sua coordenação. O seu exemplo e a sua influência sobre os estudantes e colegas, contribuindo para despertar ou consolidar vocações autênticas para a pesquisa, têm igual importância”.

Inspiração

Estudantes que tiveram a oportunidade de estar ao lado de Harry em campo ou tê-lo logo ali, numa sala ao lado no laboratório, são unânimes ao afirmar que o simples convívio com o micologista faz com que lidem com a pesquisa de forma diferente. A estudante de mestrado em Entomologia Debora Mello conta que, em 2015, durante a sua graduação, participou como bolsista de iniciação científica de um projeto em que o pesquisador britânico era colaborador: “Durante o desenvolvimento do projeto, Harry sempre nos acompanhava nos trabalhos de campo e em laboratório, nos dando todo suporte necessário para a realização da pesquisa. A partir daí, comecei a ter mais interesse sobre a relação entre formigas cortadeiras e seu fungo mutualista, o que me fez querer trabalhar com isso também em minha monografia. Dessa forma, fui procurar o Harry, discutir ideias, e após a defesa da monografia, tive vontade de continuar nessa linha de pesquisa também no mestrado. Atualmente, continuo fazendo parte do projeto em conjunto com Harry e outros colaboradores. Sinto-me privilegiada por isso”.

Uma característica em especial faz de Harry fonte de inspiração para os jovens pesquisadores: “Quando vou ao campo com o Harry, sempre me surpreendo. Ele consegue enxergar uma diversidade de fungos em qualquer lugar das trilhas, é extremamente observador. O fato de ele conseguir encontrar esses fungos não é simplesmente porque trabalha com isso há muito tempo, mas por ele ser observador e cuidadoso com o seu trabalho. Hoje, também procuro agir dessa forma, não só nos trabalhos de campo, mas também em laboratório. Acho essa característica importante para a formação de um bom cientista” – ressalta Débora. _DSC4565

Tal comportamento também inspira a doutoranda em Entomologia Marcela Caixeta. Ela desenvolve um estudo sobre a biodiversidade dos fungos mutualistas e micoparasitas, associados às formigas cortadeiras da tribo Attini em fragmentos de Mata Atlântica e afirma: “Harry tem contribuído muito para o meu conhecimento não só em relação ao meu sistema de estudo, mas para os fungos em geral, devido à sua grande experiência nesse tema. Ele propõe ideias e questionamentos feitos, principalmente, a partir de suas observações no campo, que são, muitas vezes, o ponto de partida para um novo experimento”.

O micologista britânico atua em várias frentes de trabalho: “Atualmente, estou pesquisando e desenvolvendo projetos sobre: manejo de formigas cortadeiras para sistemas agroflorestais no Brasil; controle biológico clássico da erva daninha unha-do-diabo (Cryptostegia madagascariensis) no Ceará; taxonomia e ecologia de Moniliophthora perniciosa (vassoura-de-bruxa do cacaueiro); potencial de controle biológico clássico usando fungos patogênicos para o manejo de Aedes aegypti no Brasil; potencial de controle biológico clássico usando fungos patogênicos para o manejo de Solenopsis invicta (formiga lava-pés) em países invadidos por essa formiga brasileira (EUA, Austrália e China)” – descreve.

_DSC9738

De acordo com Harry, “trabalhar no Brasil ao longo de quase quatro décadas tem me dado capacidade de aprofundar na enorme diversidade que existe no país, especialmente no reino Fungi, e essa diversidade precisa ser mais bem manejada. A UFV tem estabelecido uma importante capacidade micológica que poderia desempenhar um papel fundamental no futuro da agricultura brasileira, explorando essa diversidade micológica”.

Como bom observador, Harry costuma ser bem assertivo nas suas indicações. Afinal, como Marcela destaca, “me impressiona a sua capacidade de observar e, principalmente, se encantar por coisas que passam despercebidas aos olhos da grande maioria das pessoas. Ele nos ensina que até coisas que a princípio podem parecer insignificantes, têm a sua importância ou são simplesmente interessantes em conhecer”.

Comments are closed.