Perfil: Og DeSouza, entomólogo de nascença

Professor Og DeSouza 2

Você se lembra de quando ouviu a palavra entomologia pela primeira vez? Poucas pessoas devem se lembrar de quando descobriu o nome da área que estuda os insetos. Mas, certamente, aqueles que se lembram têm uma relação singular com essa especialidade. O professor Og DeSouza, por exemplo, a descobriu há mais de 45 anos, quando ainda garoto ganhou uma enciclopédia de ciências naturais que trazia o termo. Aos nove anos de idade, a palavra entomologia mais que uma novidade para o seu vocabulário, trazia para o pequeno Og um significado ainda maior. Ali, ele decidiu a sua profissão: iria ser entomólogo! O menino que descobriu bem cedo o fascinante mundo dos insetos acaba de atingir o topo da carreira do magistério superior. Ele foi promovido a professor titular do Departamento de Entomologia da UFV. E foi com o título “Entomólogo de nascença”, que ele apresentou o seminário do concurso para professor titular no dia 29 de novembro, quando contou um pouco da sua relação com os insetos, desde a infância até os dias atuais.

 “A intimidade com os insetos veio logo cedo, aos três anos de idade. Aos nove anos, descobri a palavra Entomologia numa enciclopédia de ciências naturais que ganhei de meu padrinho Mário Lúcio da Fonseca, em 18 de dezembro de 1971. Foi aí que descobri minha profissão: eu queria ser entomólogo. Nem médico, nem padre, nem engenheiro. Entomólogo e ponto! Devorei os capítulos que falavam de Arthropoda, li e reli os capítulos sobre Insecta. Aprendi alguns nomes complicados e os enfiava em qualquer conversa sobre qualquer assunto, pensando em impressionar meus pais e os amigos deles. Acho que consegui algumas vezes…” – conta. Na sétima série, já era chamado de entomólogo pelo professor de biologia.  Fato que o deixava muito orgulhoso, por sinal.

Após o ensino médio, concluído no Colégio de Aplicação da UFV (Coluni), o destino foi certeiro: o curso de Agronomia. “Minha estratégia era simples: a Agronomia me possibilitava ter contato com a Entomologia e ao mesmo tempo me abria oportunidades de trabalho e renda muito melhores do que o cenário em que a Biologia se inseria. Fui muito feliz nesta escolha. O curso de Agronomia na Universidade Federal de Viçosa era e continua sendo um dos melhores do país, com excelente estrutura e professores de alto gabarito. Ainda calouro, ouvi dizer que muitos destes professores tinham doutorado, mas eu não tinha a menor noção do que era isso! Ao descobrir do que se tratava, tomei minha próxima decisão importante: eu queria fazer doutorado em Entomologia!”.

Foi com essa convicção que o professor Og foi construindo uma sólida carreira. Ainda nos primeiros períodos da graduação, ele conseguiu o seu primeiro estágio, no Museu de Entomologia da UFV. Sem dominar nenhuma das habilidades exigidas para a vaga, mas manifestando o seu imenso gosto pelos insetos, Og conquistou a vaga de estágio com o professor Paulo Sérgio Fiuza Ferreira, hoje seu colega de Departamento. Foram quatro anos se dedicando ao estágio e às matérias da Agronomia. “Aprendi muito com o professor Fiuza e com David dos Santos Martins, que na época era técnico de nível superior do Museu e fazia mestrado em Fitotecnia na própria UFV. Devo a ambos a base sobre a qual construí minha carreira entomológica”.

O mundo dos cupins

Naquela época, não se tinha a oferta de bolsas de iniciação científica como se tem hoje. “Sabedor de que eu não tinha bolsa, o professor Sebastião Bastos Nogueira me ofereceu um estágio remunerado para testar inseticidas. Um salário mínimo, uma fortuna para mim. Imediatamente dispensei o suado meio-salário que meu pai me enviava mensalmente e acumulei os dois estágios: com o Fiuza e com o Nogueira. O professor Nogueira me apresentou o mundo dos cupins. Num primeiro momento, não me entusiasmei muito, pois faltava neles o colorido dos Coleoptera: Chrysomelidae, que eu mantinha organizados no Museu de Entomologia. Mas tudo começou a mudar quando estagiei no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP)”. Og passou duas semanas como estagiário da seção de Isoptera do MZUSP. “Ao ser apresentado à enorme diversidade de formas dos Isoptera, comecei a perdoá-los por não serem tão coloridos quanto os besouros”.

O novo estágio veio reforçar a sua preparação para a próxima etapa a ser conquistada: o mestrado em Entomologia da UFV, que acabara de ser criado pelo professor Evaldo Vilela, em 1984. Visando ter no seu currículo uma passagem formal pela entomologia, Og também se candidatou e foi aprovado como monitor da disciplina Entomologia Geral (antes, BAN 262 e hoje, ENT 160).

A escassez de bolsas era uma realidade, mas Og buscou alternativas para levar adiante os seus planos na pós-graduação. “Seguindo um conselho do professor Vilela, tratei logo de procurar um financiamento externo para o meu mestrado, conseguindo-o da Tinker Foundation, por intermédio do World Wildlife Fund (WWF). A exigência para esta bolsa era das mais agradáveis: conduzir a tese na Amazônia, com foco em cupins, dentro do projeto Biological Dynamics of Forest Fragments. Meu projeto foi avaliado e aprovado – pasme! – por Edward O. Wilson, que já naquela época era uma lenda viva do estudo dos insetos sociais. O trabalho na Amazônia consolidou a minha paixão pelos cupins. O professor Nogueira novamente foi peça chave nisso, conseguindo um novo estágio, desta vez, no Museu Emílio Goeldi, sob a orientação do professor Adelmar Bandeira. Juntei as amostras que já tinha coletado em Manaus e fui a Belém para identificá-los. Voltei de lá totalmente convencido de que construiria uma carreira em Isoptera”.

Professor Og DeSouza 3

Sempre preocupado em consolidar a qualidade da pós-graduação em Entomologia da UFV, o professor Evaldo Vilela trazia frequentemente a Viçosa pesquisadores estrangeiros, e Og tinha participação ativa na recepção dos visitantes. “Para treinar minhas habilidades linguísticas, eu servia de cicerone aos visitantes. Por intermédio de dois deles, Dr. Pierre Jolivet e Dr. Clive Wall, consegui dois aceites para o doutorado no exterior: um em Montpellier, na França e outro no Imperial College, Silwood Park, na Inglaterra. Não foi difícil optar, o Imperial era a ‘Meca’ da Ecologia naquele momento, monstros sagrados da área trabalhavam em Silwood: John Lawton, Bob May, Charles Godfray, Mike Hassel, Mick Crawley, dentre outros. Fui orientado pela Dra. Valerie Brown (na época vice-presidente da prestigiosa Bristish Ecological Society) com coorientação do Dr. John Lawton, numa tese sobre efeitos da fragmentação do ecossistema nas comunidades de cupins do cerrado” – revela.

Carreira docente

Em 1992, ainda cursando o doutorado, Og foi aprovado num concurso para professor da UFV e assim que defendeu a sua tese, em setembro de 1993, assumiu o cargo. Nesses 24 anos de carreira docente, ele já orientou (como orientador principal) 13 teses de doutorado e 20 dissertações de mestrado. Foi coorientador de outras 56 (em ambos os níveis). Supervisionou cinco pós-doutores e tem 66 artigos completos publicados. Og é Bolsista de Produtividade CNPq 1B, editor associado da Sociobiology desde 2013, é membro do corpo editorial da CopIt ArXives desde 2008, e foi editor associado da Neotropical Entomology, de 2009 a 2014. Og atua como membro de comitês avaliadores na FINEP, CNPq, CAPES e Fapemig e como consultor do Fond de Recherches Scientifiques (Bélgica). Em reconhecimento ao trabalho que desenvolve junto à Fapemig, Og recebeu o Prêmio Amigos da Ciência, Amigos da Fapemig, durante as comemorações dos 30 anos da Fundação, em 2016.

Além de professor, Og foi coordenador do Programa de Pós-graduação em Entomologia entre 1999 e 2000, quando implementou um sistema de distribuição de recursos financeiros com base no nível de produtividade científica do pesquisador. “Isso não só imprimiu grande transparência ao sistema, mas também serviu como reconhecimento do esforço de publicação do pesquisador, e contribuiu para um avanço considerável na nossa produção. Já no ano 2000, éramos um dos programas de pós-graduação proporcionalmente mais produtivos da UFV, apesar de naquela época ainda sermos nível 5. Quero crer que isso tenha também contribuído para nossa posterior elevação ao nível 7 da CAPES”. Na sequência, entre 2000 e 2004, Og foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFV, na gestão do então reitor Evaldo Vilela.

Além dos cargos importantes, produção científica, entre outros, Og tem uma grande preocupação com um aspecto da sua carreira: a didática. “Considero que um professor tem obrigação de dar uma aula excelente. Considero ainda que, quem decide se a aula foi excelente é o aluno! Radicalmente, tenho para mim que não há nada difícil de entender; o entendimento depende muito mais do jeito de explicar do que da capacidade de raciocínio do aluno. Em outras palavras, quando um aluno não entende uma explicação, quem deve se esforçar para resolver o problema é o professor. Para isso, o professor deve usar de todas as técnicas possíveis para tornar mais leve o esforço de aprendizado do aluno. Muito desta postura aprendi com os professores Vicente Wagner Dias Casali e Per Christan Braaten, ambos aposentados da UFV. Sou-lhes muito grato por isso”.

Gratidão

Alguns anos já se passaram desde quando o garoto Og sonhava com a profissão que exerce hoje. Mas o encantamento pelos insetos só aumentou com o passar do tempo. Agora, ao atingir o título de professor titular do Departamento de Entomologia, o sentimento dele é de gratidão. “Considero ter alcançado aquele meu sonho de me tornar Entomólogo e sei que isso só foi possível porque ao longo desta jornada tive ajuda e incentivo de muita gente. Sou grato aos meus pais que permitiram que eu brincasse com aqueles ‘bichos’ estranhos ao invés de incutir em mim uma repulsa aos insetos. Sou grato pelos livros presenteados por meu pai e por meu padrinho. Agradeço também àqueles inúmeros professores que souberam incentivar esta paixão pelos insetos. Devo muito também aos colegas, desde aqueles da graduação, passando pelos da pós-graduação em Viçosa e em Silwood Park, e incluindo os atuais colegas do Departamento de Entomologia da UFV. Vários deles se tornaram colaboradores científicos admiráveis, amigos inseparáveis ou irmãos quase siameses. Alguns se tornam as três coisas. Não poderia esquecer ainda dos meus orientados de iniciação científica, mestrado e doutorado. O convívio no nosso quotidiano do Laboratório de Termitologia me proporciona crescimento pessoal e profissional constante e profundo, e torna muito mais prazerosa a minha já apaixonada relação com a Entomologia. Nada disso seria possível, entretanto, sem o apoio incondicional que sempre tive de minha esposa Flávia e dos meus filhos Pedro e João. Eles são, ao mesmo tempo, o meu sustento e motivo nesta jornada. Se tive algum sucesso, este sucesso pertence a eles”.

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