Pesquisadores comemoram resultados de sete anos de cooperação científica entre Brasil e Omã

Visita a Omã_nov 2018

Os resultados da parceria científica entre a UFV e a Universidade Sultan Qaboos (SQU), de Omã, foram apresentados no país árabe pelos pesquisadores brasileiros no mês de novembro. Financiado pela Vale – a empresa produz pelotas de minério de ferro em Omã, o convênio entre a UFV e a SQU teve início em 2011. A parceria promoveu transferência de tecnologia entre os países e resultou na publicação de 150 trabalhos científicos e no treinamento de 15 pós-doutores, 11 doutores, 12 mestres e 37 bolsistas de Iniciação Científica. Com duas frentes de trabalho, nas culturas de manga e citros, o projeto realizou de forma inédita, o levantamento genético das variedades do fungo causador da seca-da-mangueira (Ceratocystis fimbriata) e identificou que o fitoplasma causador da vassoura-de-bruxa nas plantações de limão-galego é transmitido por duas espécies de insetos vetores: a cigarrinha Hishimonus phycitis e o psilídeo Diaphorina citri.

“Quando a Vale iniciou suas operações em Omã, buscamos estreitar os laços entre nossos países. Estávamos lá em 2009 e as autoridades omanis se mostravam preocupadas com doenças que vinham afetando as plantações de manga e limão do país. Foi aí que surgiu a oportunidade de uma parceria científica entre os dois países” – lembra o diretor de Sustentabilidade e Relações Institucionais da Vale, Sérgio Leite, que na época era o CEO da empresa em Omã. Assim, a Vale promoveu a aproximação entre os pesquisadores da Sultan Qaboos e da UFV.

Omã 3

Ao longo de sete anos, pesquisadores de ambas as instituições trabalharam em parceria visando combater a seca-da-mangueira e a vassoura-de-bruxa nas plantações de limão. Além de auxiliarem os produtores dos dois países a controlar tais doenças, as pesquisas desenvolvidas servem de alerta para as autoridades brasileiras de que é preciso redobrar os controles fitossanitários no manejo e transporte de mudas. No caso da manga, os pesquisadores identificaram que não há no Brasil nenhuma variedade da fruta capaz de resistir a algumas populações do fungo C. fimbriata. Esse fungo dizimou 60% dos plantios de manga em Omã e é a principal ameaça para a produção do Brasil. Já no caso do limão, os cientistas descobriram que em Omã, o psilídeo D. citri, que transmite o Greening, uma das mais devastadoras doenças de cítricos no mundo, também é capaz de transmitir o fitoplasma. Enquanto a cigarrinha só é encontrada no Oriente Médio, o psilídeo, por sua vez, está disperso no Brasil.

Vassoura-de-bruxa

Diferentemente do país árabe, no Brasil, mesmo as plantas de limão infectadas pelo fitoplasma não apresentam os sintomas típicos da vassoura-de-bruxa. “É o que chamamos de doença silenciosa. Isso pode acontecer devido ao clima, mais ameno no Brasil, combinado com a baixa quantidade de bactérias presentes no inseto transmissor. A preocupação maior é com outras regiões do país que têm o inseto, mas não foi detectada a presença do fitoplasma nas plantações. Nesse caso, é preciso ter um rigoroso controle fitossanitário no transporte de mudas entre os estados para evitar qualquer propagação da bactéria para regiões que estão livres dela” – alerta o pesquisador Renan Batista Queiroz, que morou em Omã entre maio de 2013 e abril de 2014, onde pesquisou sobre os insetos vetores do Candidatus Phytoplasma aurantifolia e seus manejos, como parte da sua tese de doutorado no PPG em Entomologia da UFV.

Em Omã, foi identificado que esse fitoplasma está presente em 30% das mudas produzidas em viveiros do país e em 68% das fazendas omanis. De acordo com o professor Simon Luke Elliot, que orientou Renan na sua tese de doutorado e participou das pesquisas sobre citros em parceria com a SQU, “é preciso estabelecer um plano nacional para melhorar as técnicas de plantio e de controle fitossanitário. Nesse sentido, uma das principais recomendações para Omã foi a certificação de material de plantio livre da doença. O governo local já está começando a fazer essa certificação. Isso já é um grande passo” – comemora professor do Departamento de Entomologia. O projeto de citros contou com a coordenação da professora Claudine Márcia Carvalho, do Departamento de Fitopatologia da UFV, e com a participação do professor omani Abdullah Al-Saadi, da SQU.

Omã 4O professor Simon afirma que “do lado do Brasil, o projeto foi muito importante para a formação de recursos humanos e para a infraestrutura laboratorial. Em Omã, vários profissionais receberam treinamento e hoje ocupam posições importantes no ministério da agricultura do país. Oferecemos a eles um pacote de tomada de decisões para o manejo da doença”.

Seca-da-mangueira

Causada pelo fungo C. fimbriata, a seca-da-mangueira tem gerado sérios prejuízos a produtores brasileiros desde 1930. Em Omã, a doença preocupa as autoridades desde o fim da década de 1990, quando foi detectada pela primeira vez a presença do fungo. De lá para cá, a doença já dizimou 60% das plantações de manga do país árabe. “A manga é a terceira fruta de maior importância do país, perdendo apenas para a tâmara e a banana. A parceria científica, além de inédita, rendeu excelentes resultados para os dois países” – avalia o atual CEO da Vale em Omã, Jamil Sebe.

Omã 2A seca-da-mangueira preocupa porque não existem fungicidas eficientes para controlar a doença, transmitida pelo solo ou pelo besouro Hypocryphalus  mangiferae, que perfura troncos e galhos, introduzindo o fungo na planta. Atualmente, o combate se dá pela poda de galhos doentes e pelo uso de variedades de mangueiras resistentes ao fungo, como por exemplo, alguns tipos de manga Ubá. Mas a pesquisa mostrou que alguns tipos também são suscetíveis a populações mais agressivas do C. fimbriata, originárias da região Nordeste do Brasil e Leste do Rio de Janeiro. “Por isso foi tão importante esse levantamento genético do fungo. Com ele, conseguimos isolar e mapear as variedades de populações de C. fimbriata e estudar quais as melhores formas de controlar a doença tanto no Brasil quanto em Omã” – afirma o professor da UFV Acelino Couto Alfenas, coordenador geral do projeto.

O pesquisador do Departamento de Fitopatologia explica: “Inoculamos os isolados do Nordeste, Sudeste e Leste do Rio de Janeiro nos 129 acessos e verificamos que a mangueira Ubá foi resistente apenas à população do fungo do Sudeste, mostrando-se suscetível aos isolados do Nordeste e do Leste do Rio. Essas duas populações são bastante agressivas. Chegamos, então, à nossa primeira conclusão: hoje não temos nenhuma variedade de manga resistente a todos os isolados do C. fimbriata encontrados no Brasil. Isso serve de alerta para que as autoridades redobrem os cuidados fitossanitários no Nordeste, onde temos uma grande expansão da cultura da manga que está vulnerável a uma das populações mais agressivas do fungo. Já em Omã, é possível combater a doença por causa da seleção das 19 variedades de mangas resistentes ao genótipo encontrado lá, identificadas pelo projeto”. No mês de novembro, quando foram anunciados os resultados da parceria científica na SQU, os pesquisadores entregaram 570 garfos (ramos) das 19 variedades de mangueiras resistentes para serem enxertados, visando à produção de mudas não suscetíveis ao fungo no país árabe.

Na UFV, a parceria permitiu a modernização da infraestrutura laboratorial, com a compra de um sequenciador de DNA e vários equipamentos laboratoriais e máquinas agrícolas, e a formação de um banco de germoplasma com 1.208 árvores de 302 variedades de manga, hoje considerado um dos maiores da América Latina, segundo Acelino. Além do coordenador geral, o projeto da manga contou com a participação de outros professores da UFV: Marcelo Coutinho Picanço, do Departamento de Entomologia; Fabrício de Ávila Rodrigues e Luiz Antônio Maffia, do Departamento de Fitopatologia; Dalmo Lopes de Siqueira, do Departamento de Fitotecnia, referência na área de fruticultura, cuja atuação foi fundamental para a implantação do banco de germoplasma. Além dos pesquisadores brasileiros, participaram das pesquisas os professores Thomas Harrington, da Iowa State University (USA) e Abdullah Al-Saadi, da Sultan Qaboos (Omã).

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