Doutor em Entomologia retorna aos EUA para trabalhar na iniciativa privada

Hudson Ventura

Dentro de alguns dias, o doutor em Entomologia pela UFV, Hudson Vaner Ventura Tomé, estará desembarcando nos Estados Unidos para assumir o cargo de Senior Biologist, na EAG Laboratories, empresa americana que atua na área de Ecotoxicologia. A oportunidade surgiu após Hudson fazer doutorado sanduíche na Universidade da Flórida, onde ele desenvolveu parte da sua pesquisa com abelha Apis mellifera. Nesse período, sob a orientação do Dr. Jamie Ellis, Hudson incrementou a metodologia de criação de abelhas operárias in vitro, alcançando 100% de sobrevivência. Isso despertou o interesse da empresa americana.

 “Ao contrário do que acontece no Brasil, muitas empresas privadas americanas mantêm uma ligação muito próxima às universidades de lá. Os diretores da EAG Laboratories ficaram interessados na metodologia de criação in vitro que desenvolvi no laboratório do Dr. Ellis, o qual prontamente me indicou para a vaga de emprego” – destaca. Na empresa americana, Hudson atuará principalmente no treinamento de outros pesquisadores e técnicos ao protocolo de criação in vitro de A. mellifera e aos testes toxicológicos de pesticidas nesses insetos.

O pesquisador explica que “de acordo com o órgão americano EPA (Environmental Protection Agency), que se assemelha à Anvisa no Brasil, mais de 530 compostos são usados na agricultura nos EUA, e a grande maioria deles ainda não foram testados quanto à sua segurança às larvas de abelhas. No passado os testes eram baseados somente em abelhas adultas porque o protocolo de criação de larvas ainda não tinha sido desenvolvido com eficiência. Como eu consegui fazer isso durante o meu doutorado sanduíche, agora, o EPA adotará o protocolo nos testes de segurança para abelhas”.

As expectativas de Hudson para a nova fase são as melhores possíveis: “Vou trabalhar na área da ciência em que me especializei. Aqui no Brasil, nem sempre é possível conseguir uma vaga naquilo que dedicamos grande parte da vida estudando. Assim, acredito que estarei muito seguro nas funções que desempenharei na empresa”.

Hudson e sua família embarcarão para os Estados Unidos no dia 22 de setembro. O novo endereço será em Gainesville, no estado da Flórida. A cidade já é conhecida, pois há dois anos, durante o doutorado sanduíche, foi lá que o casal morou. “Além de já conhecermos muito bem a cidade, deixamos muitos amigos brasileiros e americanos por lá, o que com certeza ajudará muito na nossa readaptação” – comenta. Desta vez, Hudson e a esposa também contam com uma companhia muito especial, já que a família ganhou mais um integrante: o casal está à espera do primeiro filho.

O que estava por vir

Quando um estudante ingressa num curso superior, dificilmente ele tem certeza sobre o seu futuro profissional. E com Hudson não foi diferente. Engenheiro Agrônomo formado pela UFV, onde ingressou em 2004, ele confessa que não tinha ideia do que o futuro lhe reservava quanto à inserção no mercado de trabalho: “Entrei no curso sem mesmo ter noção do que a Agronomia poderia me oferecer. À medida que o tempo foi passando e com o mestrado e o doutorado, a pesquisa científica foi cada vez mais constante na minha vida. Eu também sempre me senti bem com a sala de aula e no fundo eu acreditava que ser um professor universitário seria questão de tempo. A sala de aula não veio e hoje estou perto de ir para outro país trabalhar exclusivamente com pesquisa, algo que eu jamais tinha pensado antes mesmo de concluir meu doutorado”.

Hudson terminou o doutorado na UFV em fevereiro de 2015 e desde então ele vinha se dedicando ao pós-doc, sob a supervisão do professor Eugenio Eduardo de Oliveira, no Laboratório de Fisiologia e Neurobiologia de Insetos. “A bolsa de pós-doc foi importantíssima para a minha permanência na UFV e pelo meu amadurecimento profissional. Durante esse tempo, tive a oportunidade de continuar a trabalhar com abelhas, mas também com outras espécies de insetos. Ajudei a elaborar e escrever artigos, alguns já aceitos para publicação. Pude desenvolver habilidades de liderança e relações interpessoais, imprescindíveis no trabalho em equipe. Além disso, tive a oportunidade de lecionar aulas de Morfologia e Fisiologia de Insetos na disciplina de Entomologia Básica (ENT160), que é oferecida para estudantes de graduação”.

Pare ele, a primeira opção seria permanecer no Brasil, para ficar perto da família e contribuir com a pesquisa nacional. Entretanto, nem tudo é como se deseja. “Percebo que a profissão de pesquisador no Brasil não tem a valorização que merece. Sempre pensei em ser professor de alguma universidade e trabalhar com pesquisa, mas as oportunidades não apareceram depois que concluí o meu doutorado. As universidades são poucas e as vagas disponíveis para contratação também são escassas. Obviamente, a crise econômica agrava o cenário, o que tem deixado muitos de meus colegas sem emprego e com dificuldades de manterem suas famílias. O mais interessante é que a ida de pesquisadores para o exterior não se restringe apenas a profissionais recém-doutores como eu, mas também de professores com carreiras já consolidadas em universidades brasileiras, que impedidos de realizarem suas pesquisas pela falta de fomento, também estão migrando para instituições no exterior” – avalia.

Encerrando um ciclo de quase 13 anos na UFV, o pesquisador manifesta a sua gratidão pelo que passou e o entusiasmo com tudo o que está por vir: “Sou muito grato a todas as pessoas que vivi e convivi durante esse tempo. Agradeço aos amigos e professores de todos os laboratórios pelos quais trabalhei e, principalmente, às pessoas que me criticaram e apontaram os erros, pois acredito que são as críticas construtivas que nos incentivam a melhorar como pessoa e profissional. A partir de agora outro ciclo se inicia, com novos aprendizados e situações que moverão minha vida. O primeiro bebê que está a caminho é sem dúvida o que mais me motiva agora, mas tenho certeza que muitas outras realizações como essa virão”.

Leia também: Estudante compartilha experiência de levar a família para o exterior durante doutorado sanduíche

2 Comments on “Doutor em Entomologia retorna aos EUA para trabalhar na iniciativa privada

  1. Caro Hudson, manifesto aqui uma realização profissional e pessoal enormes através de sua carreira. Obrigado por ter feito parte da minha equipe diretamente enquanto mestrando e doutorando. O seu sucesso é simplesmente MÉRITO. Resulta da sua dedicação e gosto pela ciência, um exemplo para qualquer pós-graduando. Estamos sempre aqui para o que precisar. Seu ex-orientador e amigo de sempre. Gustavo.

    • Olá Gustavo, agradeço muito suas palavras e também todo conhecimento compartilhado comigo ao longo desses anos. Foi um prazer te-lo como orientador no doutorado. Obrigado pelo incentivo e principalmente pelas correções de rota, na qual sempre me orientou o melhor caminho. Grande abraço… Hudson.

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