Perfil: Raquel Gontijo Loreto

Quem vai desembarcar em território brasileiro nesta semana é a Dra. Raquel Gontijo Loreto, que acaba de obter o título de Doctor of Philosophy (PhD), pela Penn State. Ela passou cinco anos nos Estados Unidos, onde fez doutorado pleno no Graduate Program in Entomology, sob a orientação do Dr. David P. Hughes, com bolsa concedida pela Capes. Agora, Raquel volta ao Brasil para cumprir a exigência do órgão de fomento, que é permanecer no país por período igual ao da bolsa e exercer atividades relacionadas aos estudos realizados no exterior.

Diante da instabilidade política e econômica que cerca o país, o momento parece não ser o mais propício para retornar. Mas não há outra possibilidade (a não ser ressarcir a Capes todo o investimento, cerca de 200 mil dólares). Para Raquel, foi “muito azar” acabar o doutorado agora. “A Capes me manda voltar. Eu tenho a obrigação de ficar quatro anos no Brasil em retorno pelo que eles me pagaram. Eu concordo, acho correto que, por ter sido dinheiro do governo, eu retribua de alguma forma. Mas eu não vejo como retribuição voltar ao Brasil agora que não tem recursos para eu colocar em prática tudo o que aprendi. Você está lutando para retornar os investimentos, mas você não tem meios para fazer isso” – analisa a pesquisadora mineira.

De malas prontas, Raquel vai trazer consigo o desejo confesso de permanecer nos Estados Unidos (onde deixará o seu marido) e a vontade de compartilhar por aqui todo o conhecimento que adquiriu. Será no Laboratório de Interação Inseto-Microorganismo da UFV, sob a supervisão do professor Simon Luke Elliot, que Raquel terá a oportunidade de dar continuidade aos estudos sobre interação parasita-hospedeiro. Isso significa que, além de retornar ao Brasil, Raquel estará retornando à UFV, onde se graduou em Ciências Biológicas, e também ao PPG em Entomologia, onde concluiu o mestrado.

Um dos aspectos que mais entusiasma Raquel nessa fase é poder trabalhar novamente com o professor Simon, que a orientou na iniciação científica e também no mestrado. Ela o define como o seu “pai científico”, que a apoiou durante todo o processo, desde o início quando buscava formação acadêmica no exterior, até os dias atuais.

Em breve de volta à UFV, com a oferta de bolsa de pós-doc disponibilizada pela Penn State e trabalhando para o pesquisador irlandês Dr. David P. Hughes, em colaboração com o professor Simon, Raquel acredita que poderá ampliar o seu campo de estudos, trabalhando em diferentes sistemas. Até então o seu foco de pesquisa foi a relação entre a formiga da espécie Camponotus rufipes e o fungo parasita Ophiocordyceps camponoti-rufipedis.

Raquel Loreto_Defesa

Raquel defendeu a sua tese no dia 5 de maio e está muito satisfeita com o trabalho que apresentou. Intitulada “From metabolites to continents: host-parasite interaction across spatio-temporal scales”, a tese explora as limitações ecológicas e funcionais para a manipulação comportamental de formigas pelo fungo parasita, abordando alguns dos níveis nos quais essa interação acontece. A tese apresenta sete capítulos com dados/experimentos. Quatro deles já foram publicados. Ainda durante o doutorado, Raquel coletou dados para outros quatro artigos (dois deles já escritos), que não entraram na tese. Ela também participou como coautora de três artigos (um publicado e dois em escrita).

Ter um ritmo na escrita de artigos científicos foi uma habilidade que Raquel desenvolveu durante o doutorado: “Antes eu pensava que para escrever um artigo tinha que demorar meses. E não é. Se eu parar e falar ‘vou escrever esse artigo’, em uma semana eu tenho um manuscrito para ser editado. Eu aprendi que enquanto você está fazendo os experimentos, já pode ir escrevendo”.

Cinco anos de muita dedicação

“Foram cinco anos de muita dedicação” – assim, Raquel define a sua temporada nos Estados Unidos. Dedicação que além de muito trabalho, lhe rendeu também reconhecimento. Foram três prêmios de destaque acadêmico recompensados em dinheiro e um projeto aprovado na National Science Foundation (NSF), na categoria Doctoral Dissertation Improvement Grant (DDIG).

Raquel Loreto_HokkaidoAlém disso, Raquel foi convidada para ministrar palestras em Hokkaido, no Japão, em 2014, e, em 2015, no simpósio “How cool is entomology”, durante a reunião da Entomological Society of America (ESA), realizada em Minneapolis, no estado norte-americano do Minnesota.

Ao longo desses anos, nem tudo foi fácil como pode parecer agora. Raquel conta que anualmente a dor de cabeça era garantida. Além da bolsa e da mensalidade paga à universidade, a Capes assegurava, na época, apenas parte do seguro saúde obrigatório, que deve ser renovado todos os anos. Com isso, o restante do valor era por conta do estudante. Com o alto custo a ser coberto e sem condições de arcar com ele, Raquel certa vez teve que recorrer a uma campanha on-line de doações, onde arrecadou mil dólares para completar o valor do seguro. Vale ressaltar que hoje a Capes já cobre o valor total do seguro saúde.

Grata, Raquel destaca que é inegável a importância da bolsa concedida pela Capes, sem a qual seria impossível para ela fazer o doutorado nos Estados Unidos, onde se paga muito caro para estudar. Mas ela pondera que apesar de ter uma agência que possibilita fazer o doutorado no exterior, existe uma série de taxas a serem pagas, que o órgão não cobre, e isso acaba limitando a participação daqueles estudantes que não têm condições de arcar com essas despesas. “A Capes fala que é um programa para todos, mas não é. Tem muitas coisas que a gente tem que arcar” – completa.

Diferenças entre lá e cá

Comparando os sistemas americano e brasileiro, Raquel enfatiza que existem coisas boas nos dois. Nos Estados Unidos, por exemplo, tem muita estrutura e os pesquisadores dispõem de recursos. Diferentemente, no Brasil, não se dispõe de tanto recurso e a burocracia acaba comprometendo o andamento das pesquisas com a demora na compra de materiais e equipamentos.

Por outro lado, Raquel destaca que os estudantes brasileiros são mais focados na pesquisa, eles entram na pós-graduação mais bem preparados que os americanos. Tomando como referência a graduação em Ciências Biológicas que ela fez na UFV, Raquel conclui que a preparação no Brasil é melhor. “O problema do Brasil agora, é que as coisas boas vão acabar sendo suprimidas pela falta de recursos. Não tem como fazer ciência sem recurso, é impossível” – comenta.

Nos Estados Unidos, os estudantes entram na universidade e nos dois primeiros anos da graduação cursam disciplinas gerais, só depois se especializam na área que desejam seguir e não fazem projeto de monografia como no Brasil. Raquel afirma que isso faz com que muitos estudantes entrem despreparados no doutorado, sobretudo, porque nos Estados Unidos é possível sair da graduação e ir direto ao doutorado. Muitos desses estudantes carecem de informações básicas à pesquisa – avalia.

Sobre a sua recepção na Penn State, enquanto pesquisadora brasileira, Raquel é enfática: “Nunca me senti discriminada na pesquisa. O brasileiro tem essa vontade de trabalhar. No Brasil não tem muito recurso. Quando chega aos Estados Unidos e tem esse recurso, ele acaba se destacando”.

Para os brasileiros que desejam viver uma experiência similar, Raquel recomenda dar o seu melhor: “Se o seu orientador te permitir fazer 50 experimentos, faça. Eu trabalhei muito, muito mesmo, mas valeu à pena. Então, aproveite todas as oportunidades. Em termos de pesquisa, faça tudo o que você puder. Interaja com outros pesquisadores. Converse com as pessoas. É a sua chance de fazer um excelente trabalho”. Mas ela faz uma ressalva: “Vá de mente e coração abertos”.

Hoje, se não fosse pela exigência da Capes de retorno ao Brasil, Raquel queria viver tudo de novo, só que agora num outro país, da Europa, talvez. O desejo, viver outra cultura. “Você não aprende só ciência. Você aprende muito mais que isso” – garante a pesquisadora.

Mas como pelo menos por enquanto isso não é possível, Raquel pretende permanecer no Brasil o tempo que for necessário e aproveitar esse período para interagir com outras pessoas, ministrar palestras e seminários, e contribuir com as técnicas recentes que aprendeu. “O meu objetivo é fazer o máximo que eu puder, assim como foi quando cheguei aos Estados Unidos” – resume.

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