Mestre em Entomologia se despede da UFV com um até logo

Liêvin e família

Qual é a distância que separa você da realização dos seus sonhos? Para o biólogo Liêvin Virginio nem os 2.300 km que separam Viçosa (MG) da capital do Rio Grande do Norte, o fizeram desistir de estudar o que ele sempre quis: Entomologia. No dia 17 de julho, ele defendeu a sua dissertação e agora, mestre em Entomologia, se prepara para retornar a Natal (RN), com a filha Lis e a esposa Alinne. O retorno antecipado da família não fazia parte dos planos quando eles chegaram a Viçosa em 2015. Mas desistir dos sonhos também não faz parte. Eles se preparam para partir já pensando em voltar, pois em breve terá outro processo seletivo do PPG em Entomologia e com ele surge uma nova oportunidade para continuar estudando os insetos.

Correr atrás dos sonhos, realizar e persistir só é possível porque essa jornada não é solitária: “Não haveria vida em Viçosa se minha esposa e minha filha não estivessem comigo. Somos muito unidos. Vim pra Viçosa 15 dias antes delas. Foi necessário, mas nunca havíamos passado tanto tempo distante. A gente se completa e carregarei (ou serei carregado) essas duas pessoas maravilhosas para onde tiver de ir. Minha esposa é psicóloga e deixou a profissão de lado para me acompanhar. Minha filha tinha um ano e três meses, nem andava quando veio. Nada foi fácil, mas teria sido mais difícil sem elas”.

Mudar para uma cidade que você não conhece, distante de amigos e familiares, se adaptar a um clima bem diferente daquele ao qual você estava acostumado e encarar uma nova rotina foram alguns dos desafios que a família enfrentou. Liêvin conta que ele se adaptou tranquilamente, já a esposa e a filha, nem tanto: “Não falo tanto sobre a bipolaridade do clima da cidade (calor e 5 minutos depois, chuva forte), nem sobre a época do calor intenso e frio intenso. A rotina da nossa família era a UFV. Eu tinha essa rotina, elas não, e isso não foi bom. Minha esposa tentou atuar como psicóloga, mas não deu certo em clínicas. Continuou exercendo a profissão via Skype”.

 Motivação

Mas apesar dos desafios, o biólogo garante que os dois anos em Viçosa fortaleceram a família, que retorna à sua cidade de origem ainda mais unida.  Além disso, a bagagem vai recheada de outras coisas boas, que Liêvin descreve entre risos: “Levarei o título de mestre em Entomologia, cafés especiais e queijos artesanais (além do doce de leite Viçosa!). Estou brincando, mas não mentindo! O título de mestre me dará força para concorrer em alguns processos seletivos e será muito importante daqui para frente. Levo a arte de fazer queijo artesanal para minha terra como uma diversão a mais nos finais de semana. Meu sogro tem um sítio com umas vaquinhas e pretendo fazer uns queijinhos para consumo próprio. Mas a maior bagagem que levo de Viçosa é a força e união que nós três adquirimos nesses dois anos”.

Liêvin e família 1

Além do amor pela família, o biólogo também não esconde as suas outras paixões, como o escotismo, a culinária, a leitura e a entomologia. O interesse pelo estudo dos insetos surgiu durante a graduação, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), quando ele tirou a sua primeira nota 10, justamente na disciplina Entomologia. A boa nota o motivou: “Me aproximei do professor da disciplina e tentei criar um formigueiro. A ideia não deu certo. Em 2008, fiz concurso para monitoria e passei. Fiquei dois anos como monitor de Entomologia e nesse período, criei o Distintivo de Especialidade em Entomologia para Escoteiros. Desde 2010, qualquer escoteiro do Brasil pode conhecer a ciência dos insetos e usar um distintivo para ajudar a difundir esse conhecimento. Após a monitoria, ingressei em um projeto de ectoparasitos de aves marinhas e o campo de pesquisa era o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, um pedaço de rocha no meio do oceano Atlântico, entre o Brasil e a África”. Mas foi em 2011, durante um congresso em São Paulo, que a Entomologia UFV passou a ser um sonho para Liêvin: “Assisti a uma palestra do professor Angelo Pallini sobre o PPGENTO e voltei para Natal com uma vontade enorme de ser aluno da UFV”.

Depois da sua formatura, o ingresso na pós-graduação foi adiado, mas nunca esquecido, como o biólogo faz questão de enfatizar: “Me formei em 2012 e já estava trabalhando na área. Na época, era muito complicado se formar já atuando, e eu fui deixando de lado a vontade de trilhar o caminho acadêmico. Deixando de lado, mas nunca esqueci. Em 2015, saí do emprego numa escola em Natal e, pouco tempo depois, deitado numa rede, acessei o site do PPGENTO-UFV e vi que a seleção estava aberta. Pode até parecer engraçado, mas só em saber que poderia participar da seleção já me deixou emocionado. Fiz a prova, passei e no dia do resultado, conversei com pessoas que me motivaram muito a enfrentar uma distância de mais de 2 mil km para estudar o que eu sempre quis”.

 Experimentos

Na UFV, Liêvin integrou a equipe do professor José Eduardo Serrão, no Laboratório de Ultraestrutura Celular. “O professor Serrão tem uma relação muito boa com seus orientados. O respeito que todos têm por ele foi conquistado, não exigido. Essa relação de ‘amor substituindo o temor’ é muito importante em um ambiente de pós-graduação, pois o caminho não é nada fácil e se a relação com a equipe de laboratório não for boa, o seu tempo de pesquisa se tornará um trabalho de Sísifo. A atenção e o apoio que temos do professor Serrão nos faz querer ser um profissional como ele. Não há ensinamento que se compare ao exemplo, e Serrão é exemplo para todos do Laboratório de Ultraestrutura Celular”.

Além das pesquisas que conduzia no laboratório do professor Serrão, Liêvin se dedicou a outros experimentos, que por sinal, ele recomenda com humor aos colegas pesquisadores. Longe das lupas e microscópios, o cenário passava a ser a cozinha, entravam em cena as panelas, utensílios e bons ingredientes: “Acho que todo pesquisador deveria cozinhar. Cozinhar é fazer experiências em curto prazo”.

Ele conta que se tornou um cozinheiro ainda mais curioso e vai além: “Esses dois anos de Viçosa me tornaram um pai mais apaixonado (amo minha filha mais que tudo), um escoteiro melhor (fiz de tudo pra deixar os locais que passei um pouco melhor do que como os encontrei), leitor mais voraz ainda (consegui realizar minhas leituras obrigatórias sem deixar de lado a leitura do lazer) e um entomólogo. Sempre quis ter esse compromisso social de levar a ciência dos insetos a todos ao meu redor. Agora, terei mais força para isso”.

 O que vem pela frente

Força pelo visto não vai lhe faltar para concretizar os planos daqui para frente: “Quando vim pra Viçosa, os meus planos eram fazer com que a UFV fosse um trampolim na minha vida. A UFV de fato foi um trampolim, mas ainda não aterrissei. Voltar para Natal pode ser um passo pra trás, mas nunca uma aterrissagem. Em novembro, terá outra seleção do PPGENTO e irei participar. Até o fim do ano, irei prestar concurso para o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), publicar a minha dissertação, aguardar o resultado do edital para Doutorado Pleno no Exterior do CNPq, além de tentar voltar para Viçosa”.

No último processo seletivo da Entomologia, Liêvin não atingiu a pontuação necessária para seguir para a próxima etapa e afirma: “Não é porque não atingi a aprovação para o doutorado que irei desmerecer o sistema de avaliação. É um processo diferente de muitos que vemos por aí. O candidato constrói um perfil de pesquisador. Esse perfil é que será avaliado”.

Se preparando para ser avaliado novamente, Liêvin sabe dos desafios que estão por vir. Mas, sobretudo, sabe tudo o que foi preciso para chegar até aqui. Questionado sobre o que o candidato de dois anos atrás falaria para o mestre que agora sai de Viçosa, ele é enfático: “Cara, agora você é mestre em Entomologia. Você alcançou um dos seus sonhos (um pouco de vaidade) acadêmicos. Parabéns! Agora, não pare. Continue cozinhando, amando a sua família, lendo seus livros, escrevendo seus textões nas redes sociais e tomando seus cafés especiais. Mas não pare de buscar seus objetivos. Quando você saiu da escola em que trabalhava em 2015, disse que se tornaria melhor que aqueles que o limitavam. Você já é, mas pode ir além. Não pare! Se nunca tentar, nunca saberá! Seu objetivo é ser professor de nível superior. Então, bata na porta até ela se abrir. Já deu certo, você é um vencedor”.

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